“Novo comandante da PM promete rigor contra os marginais”. A manchete do fim de semana de um jornal diário da capital não deixa qualquer dúvida sobre o papel que o coronel Maurício Iunes cumprirá como novo comandante-geral da Polícia Militar de Sergipe.
Em meio aos alardes diários e sistemáticos da mídia – em especial de histriônicos apresentadores radiofônicos – sobre uma crescente onda de violência que campeia por todo o Sergipe – ainda que os números não comprovem isso, o coronel está sendo ungido com o óleo sacrossanto da “licença para resolver” pelo chefe maior do Estado, o governador Marcelo Déda, e pelo secretário da Segurança Pública, João Eloy. “Ele é um homem afeito ao trabalho das ruas”, destacou o primeiro; “Iunes é conhecido de toda a sociedade sergipana por sua operacionalidade e suas características de proatividade”, laureou o segundo.
E em espaços importantes da imprensa, a mesma sacra unção. “Coronel Iunes é a esperança de uma PM atuante”, publicou o amigo jornalista Eugênio Nascimento em seu blog, para ir mais longe na sua análise: “O coronel Iunes é velho conhecido da população. É um militar ágil, capaz de dar respostas rápidas para os problemas, ainda que questionáveis no procedimento de alguns casos em relação ao respeito aos direitos humanos. Mas o povo pouco está ligando para isso. Ele parece fazer o que o povo quer. Um policial de soluções e que esteja nas ruas de todo o Estado transmitindo segurança”.
O grifo é nosso e mostra-se importante para destacar algumas questões que, nessas horas, ficam escamoteadas e passam longe das análises mais aguçadas dos nossos colegas de imprensa: será que é isso mesmo que o povo quer, uma polícia que possa ser questionável do ponto de vista dos direitos humanos, desde que acabe com a marginalidade e traga segurança? Quem seria mesmo esse “povo” que aparece na análise do caro colega de imprensa? E quem são mesmo os bandidos no meio desse “faroeste caboclo”?
As perguntas se mostram pertinentes quando analisamos a continuidade do artigo do jornalista – e que reflete o pensamento de boa parte dos que fomentam a opinião pública por aqui: “Quem mais ver (sic) violência é o pobre. Ela está no bairro e na rua em que ele mora e isso intimida. Talvez por isso é que um homem de ação, apontado como um policial que enfrenta os problemas com certa violência, seja a necessidade básica popular contra os marginais que rondam sua casa”, conclui o jornalista.
A análise é por demais rasa e bastante perigosa. A partir-se dela, finca-se a premissa de que para certos fins, quaisquer meios se justificam. E não é assim.
Primeiro, o pobre vê muita violência na sua rua porque é exatamente ali aonde por último chegam as políticas públicas. Onde falta educação, saúde, transporte de qualidade, saneamento básico, emprego e opções de lazer e cultura sobra a violência. Isto é fato.
Segundo, há que se considerar que, onde faltam todos esses direitos, os pobres preferem a polícia bem longe, porque por perto, são os primeiros a sofrer na pele com ações truculentas pela simples condição de serem pobres. Isso também é fato. Há muito que se convencionou, com apoio sistemático de grande parte da mídia, que todo morador de morro ou de favela é bandido, só cabendo à polícia decidir o grau. Nas operações policiais em favelas, morra traficante ou morador, pra quem vê no noticiário, é tudo igual. É menos um.
Sejamos honestos, quem mais quer a polícia aparelhada até os dentes, nas ruas e agindo com dureza são os mais aquinhoados, para assim terem assegurado os seus insuspeitos direitos de propriedade e de acumular bens e capital, e que assim seja mantido o pacto social que perpetua a estratificação do bem-estar e fartura para alguns, miséria e fome para a maioria.
Assim, em lugar de políticas públicas abrangentes e distribuição de renda para erradicar a miséria, com a coragem de tirar dos mais ricos para fazer chegar aos mais pobres, financia-se uma polícia dura e seletiva, com comandantes mais duros ainda. Pela tradição do atual comandante, é o que o governador terá. E deverá arcar com a sua escolha.
Afinal, basta uma rápida pesquisada na internet para constatar que pelo menos em dois episódios (graves), o coronel deixa claro seu jeito de agir: em setembro de 2009, praticou abuso de autoridade, cárcere privado e espancamento contra um universitário de 20 anos, que estaria se encontrando com sua filha de 14, (ao jovem, teria dito “que já tinha matado vários e matar mais um não faria diferença”); em abril do ano seguinte, teria espancado a própria irmã, inclusive com uso de revolver na boca da vítima, tudo para que assinasse a transferência de uma empresa de segurança para o seu nome (o caso consta no B.O. número 2010/04620.0-000273, registrado no Departamento de Grupos Vulneráveis da Polícia Civil, no dia 1º/04/2010, das 21 horas às 21h30).
À época, o delegado da Polícia Civil Paulo Márcio, em sua coluna no Universo Político.com, escreveu sobre o caso: “(...) Não desejo alfinetar nem pôr na berlinda o governador Marcelo Déda, que não dispõe de mecanismos para sondar o psiquismo de seus subordinados nem prever ações e atitudes desastrosas e tresloucadas, quando não criminosas. Acredito, tão-somente, que não só por esse fato, mas, sobretudo pelo conjunto da obra, Maurício Iunes já deu provas mais do que suficientes de que não possui o equilíbrio necessário para permanecer à frente de tão importante cargo [na época, chefe do Comando do Policiamento Militar da Capital – CPMC]”.
É esse mesmo Iunes quem agora vai comandar toda a PM de Sergipe.
A escolha pode ser um tiro no pé do governador Marcelo Déda que, lembremos, enviou à Assembleia Legislativa uma proposta de Código Disciplinar para os bombeiros e policiais militares, dentro da nova Lei Orgânica Básica, que de tão rigorosa e intrusiva (chega a invadir a vida privada do militar), aplicada nos dois casos acima, Iunes estaria fatalmente enquadrado e em maus lençóis.
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segunda-feira, 14 de maio de 2012
quinta-feira, 10 de maio de 2012
Bichos exóticos em viveiro público
Passando hoje pela manhã na Praça Tobias Barreto, na capital de todos os sergipanos, qual não foi a minha surpresa ao ver vários tipos de bichos no viveiro daquela outrora bela praça, e que tão boas lembranças me traz, principalmente da época em quer rockers, punks e metaleiros (aqui me incluo) ali se reuniam pra curtir som e as "beldades" que transitavam pela famosa "Feirinha de Domingo".
Pois bem, dentro do viveiro, vi um bicho bastante exótico: o "bicho-caminhão-de-madeira" (veja na foto). Mas também vi o "bicho-cadeira-de-plástico", o "bicho-água-parada-e-contamina da", o "bicho-lixo", e, finalmente, o "BICHO-ABANDONO"! Lamentável!
Uma praça que poderia ser modernizada, melhorada, enfim, servir de espaço de lazer, entretenimento e ponto de encontro dos aracajuanos, hoje amarga uma lastimável realidade de abandono... O grande Tobias Barreto não merecia isso!
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Como o crime organizado faz jornalismo
Editorial do jornal Brasil de Fato:
A Operação Monte Carlo, desencadeada pela Policia Federal (PF) para desbaratar a quadrilha comandada pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira, já é merecedora de um mérito: publicizou o conluio de setores da grande mídia com o crime organizado para alcançar objetivos econômicos e políticos.
As investigações da PF, com informações documentadas e já amplamente divulgadas, atestam que o bicheiro utilizava a revista Veja, do grupo Abril, para disseminar perseguições políticas, promover suas atividades econômicas ilegais, chantagear, corromper e arregimentar agentes públicos. A revista se prestava a esse esquema de coação e chantagem do bicheiro.
Em troca, a revista da família Civita recebia do contraventor informações, gravações e materiais – na maioria das vezes obtidas de formas criminosas – que alimentavam as páginas da publicação, para destilar seu ódio e preconceito contra seus adversários políticos, principalmente os do campo do PT.
A aliança da revista Veja com o crime organizado rendeu denúncias que reverteram em ganhos econômicos para a organização criminosa de Carlinhos Cachoeira e seus aliados políticos – os contratos da construtora Delta com governos estaduais precisam ser profundamente investigados – e se constituíram em instrumento de pressão e amedrontamento de autoridades públicas. Dessa forma, consolidaram um esquema criminoso, milionário, com ramificações privadas e públicas, nas três esferas da República.
O conluio, mais do que reportagens jornalísticas, rendia conspirações políticas e econômicas.
O acinte à democracia do país alcançou ao nível de planejar a desestabilização e queda do presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff. Enquanto Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes (ex-Dem) gargalhavam por fogo no país, a revista projetava o senador como o prócer da moralidade pública, com perspectivas de vir a ser candidato à presidência da República. Era o crime organizado, com a participação do Grupo Abril, tramando desestabilizar governos e tomar conta da máquina estatal.
No entanto, a revista Veja era pequena e insignificante para os objetivos que o conluio se propunha alcançar. Precisava de ajuda. Os telejornais da Rede Globo se prestaram a dar a ajudava de que necessitavam. Com sua peculiar e esculachada crítica, o jornalista Paulo Henrique Amorim sintetiza a mútua ajuda que se estabeleceu: “O Jornal Nacional não tem produção própria. A revista Veja não tem repercussão nacional. O crime organizado se organiza na Veja e se expande no Jornal Nacional”. Em um jornalismo sem ética, sem compromisso com a verdade e interesses públicos, que se dane a verdade factual. O que interessa, para esse tipo de jornalismo, é a versão dos fatos que atendam aos interesses dos que mantém o monopólio da informação.
Sempre que é questionada por praticar esse tipo de jornalismo, a mídia se defende afirmando que tem a capacidade de se autorregulamentar. O conluio Veja-crime organizado sepultou essa tese. Até esse momento impera o silencio da mídia burguesa sobre os vínculos da revista com a organização criminosa do bicheiro.
O jornalista Jânio de Freitas, um dos mais renomados colunistas da Folha, fez uma detalhada radiografia da organização montada pelo contraventor e suas extensas ramificações. Não disse uma única palavra das suas ramificações com a mídia. Mais do que escreveu, a sabuja lacuna do seu artigo evidenciou o medo que impera entre o patronato da grande mídia e a capacidade desse lamaçal engolir, inclusive, jornalistas decentes.
Ao pacto de não noticiar a promiscuidade do grupo Abril com o crime organizado juntam-se, agora que a CPMI está instalada, os esforços para evitar que os que se beneficiaram com a organização criminosa do Carlinhos Cachoeira sejam convocados a dar explicações no Congresso Nacional e para sociedade.
O deputado federal Miro Teixeira (PDT/RJ) articula um pretexto jurídico para impedir a convocação de jornalistas e proprietários das empresas de comunicação envolvidas nas atividades criminosas do bicheiro.
Um dos mais altos executivos do grupo Abril já perambulou pelos corredores e gabinetes do Congresso numa tentativa de evitar que seu patrão, Robert Civita, tenha que prestar esclarecimentos na CPMI. A Globo, fato noticiado, enviou um mensageiro para informar (ou seria ameaçar?) o Palácio do Planalto: se o empresário Robert Civita for convocado pela CPMI, os meios de comunicação declaram uma guerra sem limites contra o governo.
É de lamentar que a Rede Globo não tenha a coragem de publicar essa posição política nos editoriais dos seus jornais e divulgá-la em seus telejornais.
Caso os parlamentares da CPMI se rendam às pressões dos grupos empresariais da mídia, estarão sendo coniventes com práticas criminosas e institucionalizado duas categorias de cidadãos nesse país: os que podem ser convocados para depor numa CPMI e os que não devem ser convocados.
Há um enorme volume de informações e provas que atestam que setores da mídia estão envolvidos com atividades de organizações criminosas e que atentaram contra a democracia do nosso país. É inadmissível que os que participaram ativamente na organização criminosa, e dela se beneficiaram, não sentem no banco dos réus alegando, unicamente, a condição de serem patrões.
O Congresso Nacional instalou, atendendo os anseios da sociedade, uma CPMI para investigar as atividades do crime organizado com suas ramificações na mídia e nas três esferas da estrutura do Estado. Os parlamentares que compõe essa CPMI tem a responsabilidade de não frustrar a sociedade, apurar os fatos com profundidade e criar as condições para que seus responsáveis prestem contas à justiça, além de legar ao país uma legislação que, ao menos, iniba essa prática de jornalismo associado com o crime organizado. A Lei dos Meios de Comunicação é cada vez mais necessária e inadiável.
A Operação Monte Carlo, desencadeada pela Policia Federal (PF) para desbaratar a quadrilha comandada pelo bicheiro Carlinhos Cachoeira, já é merecedora de um mérito: publicizou o conluio de setores da grande mídia com o crime organizado para alcançar objetivos econômicos e políticos.
As investigações da PF, com informações documentadas e já amplamente divulgadas, atestam que o bicheiro utilizava a revista Veja, do grupo Abril, para disseminar perseguições políticas, promover suas atividades econômicas ilegais, chantagear, corromper e arregimentar agentes públicos. A revista se prestava a esse esquema de coação e chantagem do bicheiro.
Em troca, a revista da família Civita recebia do contraventor informações, gravações e materiais – na maioria das vezes obtidas de formas criminosas – que alimentavam as páginas da publicação, para destilar seu ódio e preconceito contra seus adversários políticos, principalmente os do campo do PT.
A aliança da revista Veja com o crime organizado rendeu denúncias que reverteram em ganhos econômicos para a organização criminosa de Carlinhos Cachoeira e seus aliados políticos – os contratos da construtora Delta com governos estaduais precisam ser profundamente investigados – e se constituíram em instrumento de pressão e amedrontamento de autoridades públicas. Dessa forma, consolidaram um esquema criminoso, milionário, com ramificações privadas e públicas, nas três esferas da República.
O conluio, mais do que reportagens jornalísticas, rendia conspirações políticas e econômicas.
O acinte à democracia do país alcançou ao nível de planejar a desestabilização e queda do presidente Lula e da presidenta Dilma Rousseff. Enquanto Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes (ex-Dem) gargalhavam por fogo no país, a revista projetava o senador como o prócer da moralidade pública, com perspectivas de vir a ser candidato à presidência da República. Era o crime organizado, com a participação do Grupo Abril, tramando desestabilizar governos e tomar conta da máquina estatal.
No entanto, a revista Veja era pequena e insignificante para os objetivos que o conluio se propunha alcançar. Precisava de ajuda. Os telejornais da Rede Globo se prestaram a dar a ajudava de que necessitavam. Com sua peculiar e esculachada crítica, o jornalista Paulo Henrique Amorim sintetiza a mútua ajuda que se estabeleceu: “O Jornal Nacional não tem produção própria. A revista Veja não tem repercussão nacional. O crime organizado se organiza na Veja e se expande no Jornal Nacional”. Em um jornalismo sem ética, sem compromisso com a verdade e interesses públicos, que se dane a verdade factual. O que interessa, para esse tipo de jornalismo, é a versão dos fatos que atendam aos interesses dos que mantém o monopólio da informação.
Sempre que é questionada por praticar esse tipo de jornalismo, a mídia se defende afirmando que tem a capacidade de se autorregulamentar. O conluio Veja-crime organizado sepultou essa tese. Até esse momento impera o silencio da mídia burguesa sobre os vínculos da revista com a organização criminosa do bicheiro.
O jornalista Jânio de Freitas, um dos mais renomados colunistas da Folha, fez uma detalhada radiografia da organização montada pelo contraventor e suas extensas ramificações. Não disse uma única palavra das suas ramificações com a mídia. Mais do que escreveu, a sabuja lacuna do seu artigo evidenciou o medo que impera entre o patronato da grande mídia e a capacidade desse lamaçal engolir, inclusive, jornalistas decentes.
Ao pacto de não noticiar a promiscuidade do grupo Abril com o crime organizado juntam-se, agora que a CPMI está instalada, os esforços para evitar que os que se beneficiaram com a organização criminosa do Carlinhos Cachoeira sejam convocados a dar explicações no Congresso Nacional e para sociedade.
O deputado federal Miro Teixeira (PDT/RJ) articula um pretexto jurídico para impedir a convocação de jornalistas e proprietários das empresas de comunicação envolvidas nas atividades criminosas do bicheiro.
Um dos mais altos executivos do grupo Abril já perambulou pelos corredores e gabinetes do Congresso numa tentativa de evitar que seu patrão, Robert Civita, tenha que prestar esclarecimentos na CPMI. A Globo, fato noticiado, enviou um mensageiro para informar (ou seria ameaçar?) o Palácio do Planalto: se o empresário Robert Civita for convocado pela CPMI, os meios de comunicação declaram uma guerra sem limites contra o governo.
É de lamentar que a Rede Globo não tenha a coragem de publicar essa posição política nos editoriais dos seus jornais e divulgá-la em seus telejornais.
Caso os parlamentares da CPMI se rendam às pressões dos grupos empresariais da mídia, estarão sendo coniventes com práticas criminosas e institucionalizado duas categorias de cidadãos nesse país: os que podem ser convocados para depor numa CPMI e os que não devem ser convocados.
Há um enorme volume de informações e provas que atestam que setores da mídia estão envolvidos com atividades de organizações criminosas e que atentaram contra a democracia do nosso país. É inadmissível que os que participaram ativamente na organização criminosa, e dela se beneficiaram, não sentem no banco dos réus alegando, unicamente, a condição de serem patrões.
O Congresso Nacional instalou, atendendo os anseios da sociedade, uma CPMI para investigar as atividades do crime organizado com suas ramificações na mídia e nas três esferas da estrutura do Estado. Os parlamentares que compõe essa CPMI tem a responsabilidade de não frustrar a sociedade, apurar os fatos com profundidade e criar as condições para que seus responsáveis prestem contas à justiça, além de legar ao país uma legislação que, ao menos, iniba essa prática de jornalismo associado com o crime organizado. A Lei dos Meios de Comunicação é cada vez mais necessária e inadiável.
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