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domingo, 28 de julho de 2013

Só parando as rotativas...

A experiência de ter tentado tirar de circulação, em uma ação sindical, um jornal local – o Jornal da Cidade – me fez refletir sobre o futuro sombrio da profissão de jornalista, especificamente no campo do jornal impresso.

A tentativa de evitar que profissionais jornalistas – pauteiros, repórteres, redatores, revisores, diagramadores e repórteres fotográficos – pudessem acessar a redação e, assim, colocar em colapso a produção do jornal a ponto de ele não conseguir sair com sua edição completa no dia seguinte, ou no máximo sair magrinho, com as notícias apenas nacionais e internacionais, foi uma ideia, confesso agora, no mínimo das mais inocentes. Mas também reveladora. 

Apesar do esforço de quase 70 pessoas, entre sindicalistas, jornalistas, radialistas, representantes de outras categorias e apoiadores de movimentos sociais, que na última sexta-feira (26) ocuparam as entradas do JC, o maior jornal diário de Sergipe – ainda que de circulação modesta – como tática para forçar o patronato da comunicação local, sempre mesquinho e arrogante na hora de negociar melhorias salariais e sociais para a categoria, a atender as pautas de reivindicações dos trabalhadores da comunicação em campanha salarial, o jornal, no dia seguinte, sábado, saiu quase que completo. Para o leitor do periódico, nada de incomum aconteceu. Seu jornal estava lá, com as notícias em dia.

A sensação de frustração por encontrar o jornal nas bancas “completinho” no dia seguinte para quem, como eu, participou do piquete na porta do JC durante todo o dia, deu lugar, logo em seguida, a reflexões mais apuradas sobre a lógica que permeia a produção de um jornal diário e a real tarefa cumprida por jornalistas de impresso em redação nos dias atuais. Por que mesmo com a tática do “ninguém entra para fazer o jornal” ele saiu na manhã seguinte quase que completo? Simples. Um jornal impresso já não precisa de uma redação física para funcionar. E isso é o que é mais assustador do ponto de vista da profissão de jornalista.

A ordem dos capatazes de redação, quer dizer, dos chefes de redação e da empresa diante do movimento paredista foi a de mandar os jornalistas para as suas casas (ou para a lan house mais próxima) se virarem na produção das suas matérias e enviá-las por e-mail. Sem consciência de classe e pressionados de muitas formas, eles foram. O resto ficaria por conta de dois diagramadores que furaram a greve intransigentemente, com a desculpa de que não eram nem sindicalizados nem jornalistas, para felicidade do patrão. Alienados duas vezes, uma por não se reconhecerem como trabalhadores a ponto de se somar aos demais, dois por sequer conhecer a regulamentação da sua profissão: pelo Decreto 83.284/79, diagramador pertence à categoria dos jornalistas.  

Com as matérias recebidas por e-mail, editadas pelos chefes de editoria – possivelmente em suas casas também – e reenviadas para o editor-geral dar sua olhada antes de enviar para os revisores por e-mail, aguardando o retorno para edição final, dois diagramadores com certeza dariam conta de fechar um jornal, ainda que no sacrifício.

Diante deste fato, fica claro que com o avanço das tecnologias da informação e as facilidades propiciadas pela comunicação em tempo real via internet, as redações jornalísticas cada vez mais caminham para uma realidade virtual. Aliás, uma parte dos profissionais do jornalismo impresso hoje em dia já atua dessa forma, produzindo matérias de suas casas ou de seus escritórios – ou de qualquer lugar que não uma redação –, enviando-as no fim do dia aos seus chefes, cumprindo com o seu “dia de trabalho”.

Assim, está aberta a temporada de caça ao jornalista formal, aquele que vai para a redação, bate seu ponto, pega as suas pautas diárias com o pauteiro e as coordenadas com o chefe de reportagem, e vai pra rua coletar as informações, voltando em seguida pra redação para produzir suas matérias.

Mais que frustração diante do ocorrido no episódio do fechamento do JC, com o esforço e persistência dos sindicalistas e apoiadores em barrar a entrada dos jornalistas e seus chefes para parar a produção do diário, fica a sensação de que a redação de um jornal impresso como historicamente a conhecemos, em breve, será peça de museu. Muito por obra e fruto dos próprios jornalistas e da sua falta de consciência de classe e reconhecimento como trabalhadores que de fato são, com carteira assinada e direitos trabalhistas por manter e por lutar para verem avançar.

O mundo virtual e tecnológico vai cada vez mais substituindo o mundo concreto e tátil como o conhecemos, transformando algumas categorias de trabalhadores de tal forma que põe em risco até mesmo a sua existência. Afinal, com o fim da exigência de diploma específico para o exercício do jornalismo no Brasil, para satisfação e glória dos empresários da comunicação, hoje qualquer um é jornalista, em qualquer lugar e a qualquer hora. Redação, assim, vai ficando supérflua. E fato concreto, para se parar um jornal impresso numa greve de trabalhadores jornalistas hoje em dia, só mesmo parando as suas rotativas, estas as únicas que não têm como ser substituídas, ainda. Fica o aprendizado.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Entrevista exclusiva com João Pedro Stédile

 Não é todo dia que a gente se bate com o João Pedro Stédile. Tive essa sorte. Conversamos um bocado. Cara extraordinário. Aproveitei e fiz uma boa entrevista com ele, publicada no site da CUT Sergipe e que disponibilizo aqui no Blog. Vale a pena conferir.

“A reforma agrária está parada no governo Dilma”

Avaliação é do coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, João Pedro Stédile, que esteve em Sergipe para participar da I Conferência Camponesa do Estado e lançar o livro Dicionário da Educação do Campo

De passagem por Sergipe, onde veio para participar, no Assentamento Quissamã, da I Conferência Camponesa do Estado, João Pedro Stédile, coordenador nacional, fundador e maior liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST, deu uma pausa na sua apertada agenda – deu palestra e lançou o livro Dicionário da Educação do Campo –, para conceder uma entrevista exclusiva, onde falou sobre o pouco avanço da reforma agrária no governo Dilma, a disputa com  o agronegócio, a criminalização, por parte da mídia e do judiciário, dos movimentos camponeses e de luta dos trabalhadores, os enfrentamentos com a mídia burguesa e a necessidade de emissoras públicas sob controle da sociedade, passando por uma rápida análise sobre a situação da reforma agrária em Sergipe. Confira a seguir a entrevista com este economista, gaúcho de Lagoa Vermelha, de formação marxista e referência mundial de lutador social, que aos 52 anos continua firme na batalha obstinada por reforma agrária ampla e justa no Brasil.

- Qual a avaliação que o senhor faz da situação da reforma agrária no Brasil no governo Dilma?
João Pedro Stédile – A reforma agrária está parada no governo Dilma. Na nossa avaliação, que é compartilhada por outros movimentos sociais que atuam em todo o Brasil, isso se deve à conjugação de vários fatores. O primeiro é que ainda o agronegócio é hegemônico na sociedade, e quem defende o agronegócio criou, via imprensa nacional, uma falsa imagem de que é este tipo de negócio que será a redenção da lavoura no Brasil, que é ele que carrega o Brasil nas costas, quando é o contrário. Se o governo não liberasse R$ 120 bilhões para financiar o agronegócio, eles não aplicariam nada na lavoura. Segundo, porque o governo Dilma, sendo um governo de composição, na nossa opinião, as forças majoritárias que coordenam a agricultura no Brasil pertencem ao agronegócio, isso não só no Ministério da Agricultura; esta visão também permeia outros ministérios, como o do Planejamento, a Casa Civil e o Ministério da Fazenda. Um terceiro fator é que falta no Brasil um debate aprofundado de projeto para a o país. O governo Dilma está apenas administrando as contas públicas e a herança do Lula, mas falta ao país um debate maior de projeto, para onde vamos e o que temos que fazer. E a reforma agrária só tem sentido se ela estiver dentro do bojo de um projeto de país. Apesar de que no senso comum reforma agrária é apenas desapropriar áreas e assentar camponeses, no fundo mesmo reforma agrária é apostar num outro modelo de produção agrícola, que se contrapõe e é antagônico ao projeto do agronegócio. E um último motivo do por que da reforma agrária estar parada é que acabou havendo um loteamento besta no INCRA entre as diferentes correntes que compõem o governo federal e isso tira a unidade de um projeto nacional.

- Como assim, um loteamento besta?
JPS - Veja, nós não somos contra partidos que fazem parte do governo indicarem seus quadros para compor este governo. É da natureza da política. Mas o que relutamos em aceitar é que o INCRA, que é estilo Banco Central, ou seja, é uma área especializada e, portanto, é preciso ter quadros que entendam do assunto, no caso do INCRA, tenha pessoas que não entendam de reforma agrária. Pra se ter um ideia do descaso, tivemos um caso absurdo na Superintendência do INCRA de Goiás, onde os partidos da base do governo de Goiás sortearam os cargos públicos a que tinham direito dentro de um copo. Aí, o INCRA no estado caiu para o PTB, que indicou um dentista para o cargo, um cara que não sabe diferenciar uma espiga de milho de uma abóbora. E no fim, somos nós que pagamos essa conta.

- Stédile, e essa crise econômica internacional, que se estende ainda hoje?  Ela tem sido utilizada como discurso para emperrar ainda mais a reforma agrária e a produção agrícola familiar e dar mais força ao agronegócio, no sentido de que este produz commodities que ajudam a equilibrar a balança comercial brasileira?
JPS – A crise mundial teve dois cenários que, para mim, são, por enquanto, bastante contraditórios. O primeiro é que ela atraiu para o Brasil muito capital financeiro internacional e que foram aplicados em compra de terras, usinas (para produção de combustíveis) e hidroelétricas, e isso fez o preço do hectare de terra subir, dificultando o cenário para nós, já que o capital internacional disputou terras com o INCRA. O Segundo movimento contraditório é que os preços das commodities agrícolas internacional subiram mais de 200% da crise pra cá, porque os capitalistas foram nas bolas de mercadorias especular. Mas isso tudo é temporário e efêmero, e aí se aplica o dito popular: quanto mais alto for, maior será o tombo. Espero que as autoridades do governo Dilma tenham juízo para se dar conta de que essa euforia momentânea das exportações agrícolas não significa nem solução definitiva para os nossos problemas econômicos e muito menos para um projeto de país; pelo contrário, a conseqüência negativa de tudo isso é que o Brasil tem abandonado o seu projeto nacional, por exemplo, na indústria. O Brasil está em pleno processo de desindustrialização. Na década de 80 a indústria pesava 36% na economia nacional, hoje pesa 15%. Isto é que é muito grave, porque a indústria significa produção de riquezas e empregos a longo prazo.

- Na sua opinião, a atual formatação do Congresso Nacional, com as bancadas ruralista e empresarial fortes, também cria uma cenário muito mais difícil para a luta por reforma agrária e para os movimentos sindical e social?
JPS – Na verdade o Congresso Nacional nunca nos foi favorável e não gera política. O Congresso é o espelho do que acontece na sociedade, diferente do Judiciário e da Imprensa, que são dois instrumentos de poder que a direita controla com muito mais força, a mãos de ferro, contra a classe trabalhadora, contra a reforma agrária e contra a esquerda. O Congresso é espelho. Como estamos vivendo um longo período de refluxo dos movimentos de massa e uma apatia geral quanto à participação na política, isso se reflete no Congresso, nas pautas que são discutidas e no rebaixamento dos que são eleitos, porque para se eleger hoje, o sujeito tem que gastar milhões, e grandes empresas é que bancam. Nós só vamos mesmo melhorar o nosso Congresso Nacional quando houver financiamento público das campanhas, porque isso dará uma democratizada no processo eleitoral. Enquanto estiver do jeito que está, será sempre muito difícil para os trabalhadores e para os movimentos sociais.

- Você falou há pouco da Imprensa. Esta mesma Imprensa, que sempre te demonizou, demonizou o MST e os movimentos de trabalhadores de uma forma geral, continua forte, já que o ‘latifúndio midiático’ é outro setor que continua intocável e que segue criando dificuldades para a luta por reforma agrária e a favor dos trabalhadores...
JPS – Claro, claro! Das várias esferas de poder que há na sociedade brasileira, a mídia é onde estamos longe de ter hegemonia. Os trabalhadores de fato conseguiram disputar, em parte, o governo (federal), e ainda assim gerou-se um governo de composição de classes, como no caso dos governos Lula e Dilma. Nos governos estaduais, este cenário é ainda mais complexo. São raros os governos estaduais onde os trabalhadores tenham hegemonia. Diante deste cenário, a direita e a classe dominante se refugiaram em dois instrumentos onde elas têm controle absoluto: o Judiciário e a Mídia, que são usados como armas contra a luta social e contra os trabalhadores. Então, quando se fala em criminalização dos movimentos sociais, é preciso levar em consideração que o que está acontecendo no Brasil nos últimos dez anos, do Lula pra cá, é que a direita não precisa mais usar a repressão contra sindicalistas, nem mandar mais assassinar líderes camponeses. Claro que aqui e acolá ainda acontecem esses casos extremados de violência, mas o foco maior da criminalização é que a burguesia tem usado a imprensa para satanizar os movimentos, para desmoralizar a luta social de maneira a criar um sentimento na opinião pública de que quem luta por transformação é baderneiro, de que movimento sindical só pensa em greve, e isso é a maior forma de criminalizar, é você condenar por antecipação. É isso que tem sido feito contra os nossos movimentos.

- Mas ao menos a mídia tem te deixado um pouco mais em paz? Como está a sua relação com a imprensa nacional?
JPS – De maneira geral, não mudou nada. Continuam batendo pesado. É só o MST fazer algum movimentação de ocupação ou obter alguma conquista mais concreta que a imprensa bate e bate firme. Mas agora também já observamos uma outra forma de ‘bater’ no movimento, é ‘esconder’ o próprio movimento. Antigamente, qualquer ocupação de terra que fazíamos, imediatamente repercutia na imprensa nacional. Eles se deram conta de que isso era uma maneira de fazer propaganda pra gente. E o que é que estamos vendo agora, de uns três a quatro anos pra cá? Eles estão querendo nos ‘esconder’. A gente pode fazer a luta que for, geralmente não sai uma linha, nem pro bem nem pro mal.

- Neste caso, para os movimentos social, camponês e sindical, não seria vital lutar muito mais para construir os seus próprios meios de comunicação para fazer essa disputa?
JPS – Ah, sim, sem dúvida nenhuma! A classe trabalhadora tem que atuar em várias frentes para se contrapor à hegemonia da burguesia. Uma das frentes é construir os seus próprios meios de comunicação, sejam rádios comunitárias, jornais, boletins, ou comprar espaços na mídia comercial, rádio e televisão, mas principalmente, pressionar o governo para que tenhamos emissoras verdadeiramente públicas, sob controle social, não como vem acontecendo. Veja a TV Brasil, acabou virando uma emissora ‘chapa branca’, assim como a TV Cultura é a ‘chapa branca’ dos tucanos. Isso não pode! Temos que ter emissoras públicas com controle da sociedade e a serviço da sociedade, para que isso democratize a televisão, que é o maior instrumento de comunicação. E, ao mesmo tempo, a única maneira de alterarmos essa correlação de forças é nós estimularmos a luta social, porque o reascender do movimento de massas é que vai criar um outro clima na sociedade.

- E como você tem observado a reforma agrária mais especificamente em Sergipe?
JPS – Pra te dizer a verdade, tenho pouca informação sobre o cenário, mas acho que aqui tem mais condições de se avançar, porque o governo estadual apoia os trabalhadores. Entretanto, infelizmente, a reforma agrária é uma questão nacional e independe na maioria das vezes de iniciativas estaduais. Então, eu acredito, embora não conheça bem, seja um verdadeiro ignorante da realidade local, que a situação não é diferente da realidade nacional.

- Diante de todo este cenário de dificuldades, você continua esperançoso de que a reforma agrária avance no Brasil?
JPS – Todo mundo que trabalha nas organizações populares, seja no movimento social, sindical ou nas igrejas, quem lida com o povo tem que ser otimista sempre. Quem é pessimista ou melancólico não pode atuar com o povo. Temos sempre que ser esperançosos e passar a mensagem de que só a luta arranca conquistas. Evidentemente que na história de construção de um país, as coisas vão acontecendo por ondas; agora estamos no refluxo dos movimentos sociais, mas virão outros momentos de retomarmos a ofensiva dessa luta. É não desanimar e continuar lutando sempre, porque é a única maneira que temos para avançar.




segunda-feira, 11 de junho de 2012

Uma pequena grande lutadora belga, agora sergipana


No dia de hoje, na Assembleia Legislativa de Sergipe, uma figura aparentemente muito frágil, de estatura pequenina, mas de um grande coração e personalidade marcante, vai estar recebendo o título de cidadã sergipana. Trata-se da belga Mathilda Antoniette Christine Hendriex, mais conhecida – principalmente na bela, mas paupérrima região do baixo São Francisco – como Irmã Francisca. Uma justa e importante iniciativa da deputada estadual Professora Ana Lúcia, do PT. Já era tempo.

Conheci essa brava e extraordinária lutadora social em 2007, quando tive a oportunidade de escrever sobre a sua vida para um jornal do mandato do então deputado federal Iran Barbosa, do PT. Liguei pra ela, conversamos por telefone, marcamos a ida à Pacatuba para a entrevista. Ela sem me conhecer, e eu louco para conhecê-la, pelo tanto que já tinha ouvido falar desta belga, que desde 68 largou a família e o conforto do seu país para vir pra Sergipe, evangelizar e também lutar pelos mais pobres e por reforma agrária neste estado de coronéis a dar de bala nos mais ousados.

Por muitos motivos, guardo aquela viagem como ‘muito especial’ pra mim, tanto na ida como na volta. Cheguei em Pacatuba no começo da tarde, e foi muito fácil achar a casa da Irmã Francisca. À primeira pessoa a quem perguntei pela missionária na praça principal da cidade já indicou o caminho. Todos ao seu redor também ajudaram a apontar o local.

Chegando lá, foi com muita alegria que a irmã e outras missionárias me receberam. Casinha simples, mas muito gostosa e aconchegante, jardim florido, alegria e paz no ar. E então passei a conversar por mais de uma hora com a belga de Wilderen. Ao longo da entrevista, descobri a força e a determinação daquela pequena senhora, que dedicou e arriscou a sua vida em prol de pessoas que muitas vezes nem conhecia, mas resistia junto com elas, no ensinamento e na luta, pregando a correta mensagem de que “terra é direito de todos”.

Entre muitas disputas com fazendeiros e jagunços, expulsões de ocupações e acampamentos, e conquistas de terras em favor dos camponeses, a belga que agora se torna sergipana deixa muitas e valiosas lições, entre as quais, que nunca se deve desistir da luta, e que a consciência de classe e de direitos por parte dos trabalhadores, seja da cidade ou do campo, é fundamental no enfrentamento às oligarquias e às elites dominantes, que querem tudo pra si, deixando as migalhas para o resto do povo.

Reproduzo abaixo a entrevista feita há cinco anos, porque também descobri que é um dos poucos registros na nossa imprensa da vida desta pequena grande missionária. Infelizmente, no meio da nossa miopia social, perdem-se os registros históricos de personalidades fundamentais na construção de nossa sociedade e nas lutas camponesas e dos trabalhadores. Irmã Francisca é uma dessas figuras emblemáticas. Fico feliz em ter tido a sorte e a oportunidade de escrever um breve perfil da sua vida aqui em Sergipe. Pena ter sido para um jornal tablóide, ou seja, com espaço curtinho para uma história tão rica e bela.

No registro, descobri um pequeno lapso de tempo numa fala da Irmã, quando ela diz que já tinha 42 anos em Sergipe. O ano era 2007, e se ela chegou por aqui em 1968, tinha 39 anos em solo sergipano. Mas manterei o texto conforme foi construído. É coisa pequena, diante de tão grandioso exemplo de vida.

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Irmã Francisca: “Não me canso de lutar”

Se alguém passar pelo Baixo São Francisco e procurar saber quem é Mathilda Antoniette Christine Hendriex, dificilmente obterá resposta. Mas pergunte quem é Irmã Francisca e, de imediato, todos indicarão onde mora uma senhora de estatura mediana, corpo franzino, sorriso largo e acolhedor, sotaque estrangeiro, mas já ‘temperado’ à brasileira. Esta belga de 77 anos, nascida na pequena cidade flamenga de Wilderen, na província de Namur, norte da Bélgica, veio para o Brasil em 68, como missionária-educadora.

Ela e mais três missionários belgas aterrissaram em terras brasileiras num momento conturbado da vida política do país. O ano era 1968, em pleno recrudescimento do Regime Militar com o Ato Institucional nº 5. Foram direto para Japaratuba, atendendo ao chamado do bispo da diocese de Propriá, Dom José Brandão de Castro, para se juntar a outros belgas que aqui já estavam, entre eles Gérard Lothaire Jules Olivier, ou Padre Geraldo, ex-prefeito de Japaratuba. “Eu ia evangelizar na África. Mas nos pediram para vir para o Brasil, através do Dom Brandão, então eu vim”, recorda.

O nome, Francisca, vem da veneração por São Francisco de Assis e seus ensinamentos. Sua vida no Brasil e a força para lutar pelas causas do povo e por reforma agrária também tiveram a inspiração em nomes como Dom José Brandão, Pedro Casaldáliga, Frei Beto e Leonardo Boff.

Nada foi obstáculo para Irmã Francisca. Problemas com a alimentação, o clima, e o idioma – o curso de português feito em nove meses, ainda na Bélgica, não ajudou muito no início. “A minha raiz flamenga só ajudou mesmo na pronúncia. Mas o português mesmo foi muito difícil. Só melhorei com o tempo”, conta.

LUTA PELA TERRA

Francisca lembra que, como educadora, teve algumas dificuldades de entrar no meio do povo, por sua cor e pela dificuldade no idioma. Ela, as outras duas irmãs e Padre Nestor, o outro missionário do grupo, seguiram os passos do padre Gerard, que já pregava a reforma agrária na região de São José, em Japaratuba. “Trabalhamos juntos e ali crescemos muito”.

Já entre 1973 e 1974, o grupo de Francisca, a Congregação Irmãs da Caridade, deixou a cidade de Japaratuba e foi trabalhar com os posseiros. “Fomos para Canhoba, reduto de fazendeiros e com muitos problemas de conflitos por terra. Fomos trabalhar na roça, evangelizar e conscientizar aquela gente de que a terra era direito de todos. Claro, tivemos problemas”, diz.

Com o tempo, aquilo foi incomodando os fazendeiros e criando tensão. Dom José Brandão de Castro, então bispo de Propriá, apoiava o grupo, mas a tensão só aumentou, até explodir. “De uma hora pra outra, tivemos que fugir para Propriá no meio da noite pra não morrer, deixando tudo para trás”, relata a missionária.

Depois de Canhoba, o grupo ‘perambulou’ por quase cinco anos entre Betume, Ilha das Flores e Brejo Grande, agora ao lado também do Frei Enoque. “Vivíamos mais dentro de um Jeep que em casa. Como a gente mexia não só com o religioso, mas com o social também, mais uma vez tivemos problemas, desta vez em Ilha das Flores. Acabamos novamente expulsos por fazendeiros e gente ligada à própria Igreja. Saímos com pedras atiradas às costas”, relata.

Sem nunca desistir, no início dos anos 80 seguiram para nova frente, agora em Pacatuba, na área da Fazenda Santana dos Frades, onde posseiros viviam à míngua, sendo constantemente ameaçados por fazendeiros e seus jagunços. Até se conscientizarem e passarem a lutar pela terra na qual viviam.

“Foi uma luta muito grande ao lado daquele povo. Foi ali que Dom Brandão se engajou mesmo na luta pela terra. Ele foi evoluindo ali, junto com a gente, compreendendo a urgência de lutar pela sobrevivência daquele povo. Ficamos três anos, até que conseguimos a posse da área graças ao apoio de muitas entidades e de muita gente de fora. Depois, não deixamos mais Pacatuba”.

Depois da conquista de Santana, outra grande luta de Irmã Francisca: a conquista da Lagoa Nova. Foram 16 anos de muita luta, conflitos e enfrentamentos, até quando saiu a imissão de posse da área em favor dos posseiros. “Confesso que houve momentos em que eu pensei em desistir. Foi muito sofrimento. Mas a amizade pelo povo falou mais forte. E valeu a pena. Foi uma grande vitória”.

BALANÇO DE VIDA

Olhando o que ficou para trás ao longo de 42 anos, Irmã Francisca sorri e, sem pestanejar, avalia: “A gente veio pra cá sem saber muito bem o que iria viver. Outro continente, outro país, outra cultura, enfim; mas para mim foi muito válido. Só posso dizer que valeu a pena. Se tivesse que fazer tudo outra vez, faria”.

Para ela, só uma ampla reforma agrária resolveria grande parte dos problemas do Brasil. “Não tem como empregar o povo senão dando terra para as famílias trabalharem. Reforma agrária é vital para o Brasil”, defende a missionária. “Ter a ajuda política é imprescindível. A politização do povo também é muito importante, porque ainda tem muita luta pela frente”, avalia.

Sobre a dicotomia das nacionalidades, Irmã Francisca responde com franqueza: “Com 42 anos aqui, não há mais retorno. Sinto-me muito mais brasileira que belga, e o povo daqui me adotou. Tenho laços familiares na Bélgica, mas aqui é a minha vida”, revela a lutadora do povo, que sempre espera por novos desafios. Ela finaliza com uma frase que resume todo o seu estilo de viver, mesmo depois de quatro décadas passando por cima da incompreensão e do atraso em terras sergipanas: “Não me canso de lutar. Nunca”.

domingo, 27 de maio de 2012

Fim do imposto sindical: questão de coerência

O que tem faltado a todas as centrais sindicais que estão contra a campanha nacional e o plebiscito realizados pela CUT pelo fim do imposto sindical é coerência. Vão a reboque do discurso fácil de que a retirada da contribuição anual sindical compulsória enfraqueceria os sindicatos e “comemoram” a notícia de que essa bandeira cutista  não “agradou suas principais entidades filiadas” no 1º de Maio deste ano, pegando como referência matéria da Folha de S.Paulo, um dos jornais mais “anti-sindical” e “anti-trabalhador” que se possa ter notícia.

A CUT, maior central sindical do Brasil e da América Latina, justamente por coerência com a sua história, seguirá defendendo a liberdade e autonomia do movimento sindical, porque desde sua criação, em 1983, o fim do imposto sindical e da unicidade sindical são duas das suas bandeiras mais importantes de luta. Para nós, CUTistas, o atual modelo de financiamento dos sindicatos, baseado no imposto sindical compulsório, deve ser mudado, para que tenhamos organizações dos trabalhadores mais representativas e fortalecidas, ao contrário do que querem pregar os oportunistas.

É preciso historiar para os trabalhadores que este imposto que tanto as outras centrais defendem é cria de Getúlio Vargas, ainda na década de 40, em pleno Estado Novo, ou seja, durante uma dura ditadura, quando Vargas regulamenta as relações entre trabalhadores e patrões, torna os sindicatos dependentes da tutela estatal e cria, então, o imposto sindical.

É importante lembrar que, em 2008, com o reconhecimento legal implementado no governo Lula, as centrais sindicais passaram a fazer parte da divisão do imposto sindical com 10% do valor total. Do restante, 60% vai para os sindicatos, 15% para as federações e 5% para as confederações. Outros 10% ficam para o governo. Ou seja, é briga por muito dinheiro do trabalhador. Caso isso seja revertido, o valor voltará para o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

Vale também ressaltar que, em agosto daquele mesmo ano, todas as centrais que hoje se voltam contra a CUT se comprometeram a apoiar o envio de um anteprojeto ao Governo Federal para implementação da contribuição negocial. Mas quatro anos depois, apenas a CUT – que recebe a maior parte do imposto por ser a mais representativa do Brasil – ainda mantém firme a sua posição, por pura questão de coerência com a sua história e com as suas lutas.

As demais centrais preferiram aliar-se à posição defendida pela maioria das entidades patronais (sim, trabalhador, os patrões tem suas entidades para defender  seus interesses, como a poderosa CNI – Confederação Nacional da Indústria, e abocanham também seu imposto sindical, cujo valor sai de uma parcela do capital social das empresas).

Não dá para ignorar que é na carona da arrecadação do imposto sindical que vem crescendo ano a ano o número de sindicatos cartoriais, sem nenhum compromisso com a luta dos trabalhadores, mas tão-somente em abocanhar o seu quinhão da contribuição compulsória, independente de fazer a luta dos trabalhadores ou não.

Por isso defendemos um novo modelo de financiamento das entidades sindicais, baseado nas mensalidades associativas e na contribuição decidida democraticamente pelos trabalhadores em assembléias. Com essa nova realidade, fatalmente aqueles que “vivem”somente do imposto anual do trabalhador terão que fazer luta sindical para serem reconhecidos por suas bases, e não esperar de pernas pro ar o dinheiro do imposto cair nas contas de seus sindicatos e centrais.

É tudo questão de coerência... mas também de coragem e compromisso real com a luta dos trabalhadores.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Shopping centers, mata-leões e preconceitos

Fico a me questionar se a grita de parte da imprensa e de muitos cidadãos pelo que aconteceu no último sábado, no badalado Shopping Jardins, quando Leidison Reis dos Santos foi morto por seguranças com um golpe “mata-leão” que lhe quebrou a coluna cervical, seria pela morte, injustificável sob todos os aspectos, de um trabalhador de tez escura e aparência simples ou por ter ocorrido dentro do maior templo do consumo de nossa sociedade: o shopping center, com sua áurea asséptica, tranquila e sempre convidativa às compras.

Para além da pergunta “Como pode uma coisa dessas acontecer dentro de um shopping center?”, que tantas vezes ouvi durante a semana, paira a sensação de que muitas pessoas ficaram horrorizadas com o crime muito mais por ele ter ocorrido no interior desse símbolo da impecabilidade que propriamente por se tratar de um ato desumano, estúpido e desproporcional de seguranças contra um trabalhador de pele escura, “suspeito” desde que nasceu. O rapaz, segundo a família, tinha ido tão-somente sacar dinheiro do seguro desemprego num caixa eletrônico para pagar as contas. Um ato simples e cotidiano que acabou lhe custando a vida.

Não tenho dúvida, fosse um caucasiano, usando roupas e sapato da moda, na mesma situação, o tratamento seria outro. Du-vi-de-o-dó que fosse retirado do shopping da forma como fizeram com o rapaz no sábado, a base de um “mata-leão”, tão eficiente que matou mesmo.

O que as pessoas desprezam ou fingem não ser real é que crimes como o que ocorreu dentro do mega templo do consumo sergipano, com característica nitidamente racista e preconceituosa por se mostrar seletivo, se repetem a cada segundo em todos os cantos do país, em lugares não tão limpos e não tão belos quanto os modernos centros de compras, e isso, no entanto, pouco incomoda a nossa sociedade. São só estatísticas. Mesmo que elas sejam assustadoras e, por si só, reveladoras.

No Brasil se mata muito. Assassinato virou coisa banal. O país é o mais homicida do planeta em números absolutos desde 2009. Foram quase 44 mil homicídios só naquele ano. Mais que a média de guerras como a da Chechênia, Angola, Afeganistão ou do Iraque. Entretanto, para além desse dado global chocante, em cada três assassinatos por aqui, dois são de negros. Em números de 2008, morreram 103% mais negros que brancos. Dez anos antes, essa diferença era de 20%. São números constantes do Mapa da Violência 2011.

E veja, o estudo nacional mostra ainda que, enquanto os assassinatos de brancos vêm caindo, os de negros continuam a subir. De 2005 para 2008, houve uma queda de 22,7% nos homicídios de pessoas brancas; entre os negros, as taxas subiram 12,1%. O cenário é ainda pior entre os jovens de 15 a 24 anos. Nessa faixa etária, entre os brancos, o número de homicídios caiu de 6.592 para 4.582 entre 2002 e 2008, uma diferença de 30%. Enquanto isso, os assassinatos entre os jovens negros passaram de 11.308 para 12.749 - aumento de 13%.

É o não estarrecedor, apesar do pouco incômodo que causa na maioria das pessoas? Mas também ajuda a explicar em parte o que vem ocorrendo no Shopping Jardins, já que o caso do rapaz morto por seguranças não é o primeiro registrado. A coisa cheira mesmo a preconceito de cor e classe social. Pelo menos mais cinco outras vítimas – todas pardas ou negras – relataram, em momentos distintos, terem sofrido torturas físicas e espancamentos por parte de seguranças do mesmo estabelecimento. 


O pai de uma delas chegou a relatar em um programa de rádio que o filho e um amigo foram levados para uma “jaula” com chão de brita, num lugar recolhido atrás do shopping, onde sofreram agressões e torturas por supostamente terem roubado em uma loja. Mas os rapazes tinham as notas fiscais dos produtos, provando a compra.

Veja a gravidade: há uma jaula de torturas no shopping mais chique da cidade! Mas pergunte se algum branco ou filho de branco passou por lá? Quem não se lembra da gangue de playboys baderneiros intitulada Aloha Pis, formada por jovens da classe média alta que, mimados e cansadinhos da vidinha fútil, viviam aterrorizando o shopping, com brigas e até esfaqueamento? Algum foi apreendido? Cumpriu medida socioeducativa? Passou pela jaula de tortura? Que nada. Para os filhos brancos da classe média e alta, tapinhas nas costas. Para os negros das classes mais baixas, mata-leões e torturas.

As pessoas precisam muita mais que apenas revoltar-se diante dos atos de violência patrocinados por seguranças privados do Shopping Jardins contra cidadãos não-brancos. Seria o caso de também fazerem uma leitura mais profunda das razões para chegarmos a esta situação de violência gratuita, e enxergarem além da superfície do que parece natural, e não é. Ver que as estatísticas, para além dos frios números, apontam para uma realidade cruel, que indica a existência escancarada de um apartheid social onde a discriminação contra a população negra é gritante, mas que tacitamente é escamoteada pelo falso mito da democracia racial brasileira.

Enquanto a sociedade não se debruçar sobre essa realidade e aceitar que se trata de uma questão ainda muito mal resolvida entre nós, haveremos de presenciar outros casos como o de Leidison, o trabalhador humilde de tez escura que foi a um shopping center da cidade sacar dinheiro do seguro desemprego num caixa eletrônico, a fim de pagar suas contas, e saiu de lá no rabecão do IML, morto por seguranças que, como berraram algumas pessoas nos programas de rádio matinais, “estão ali para garantir a integridade e a segurança dos clientes”. Mas de quais clientes? Esta é a questão.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Das laranjas às laranjas; do pó ao pó...

Neste dia 8 de junho, comemora-se, quem diria, o Dia do Citricultor. Pensar em safra, problemas na citricultura sergipana - que um dia já foi a segunda maior do país -, investimentos no campo, commodities, enfim, nada disso me vem à cabeça no dia de hoje. O pensamento mais forte que me vem à mente remete ao sofrimento e ao desespero das famílias dos sete catadores de laranja que não voltaram para casa no último dia 31 de maio, quando um caminhão que transportava laranja e 37 catadores amontoados sobre a carga cítrica, caiu ao tentar passar por uma ponte rústica de madeira, no povoado Fonte Nova, entre Boquim e Estância. A ponte, em estado precário, cedeu durante a passagem do pesado veículo. Uma tragédia mais do que anunciada.

Apesar de todo o drama, da cobertura da imprensa, da comoção em Boquim – de onde a maioria dos mortos era – e do sentimentalismo do governador do Estado, Marcelo Déda, que acompanhou o funeral das vítimas e decretou três dias de luto, não percamos de vista que o trágico acidente logo, logo será esquecido, assim como tantos outros ocorridos por estas estradas vicinais do interior de Sergipe, onde centenas e centenas de bóias-frias arriscam suas vidas da mesma forma como os sete que morreram em Boquim: sobre as carrocerias dos caminhões que transportam cargas e homens, homens e cargas. Tudo como se fosse uma coisa só, e como se tivessem o mesmíssimo valor. Nem mais, nem menos. Quanto vale a vida de um bóia-fria? Um salário mínimo e alguns sacos de laranja, para quem contrata e transporta.

Nunca é demais questionar: onde estava a fiscalização da Companhia de Polícia Rodoviária Estadual (CPRV) quando o caminhão, com “passageiros” na carroceria, passou sem ser importunado? A desculpa agora é a de que a estrada é de responsabilidade do município. E tem Companhia de Polícia Rodoviária Municipal? Desconheço. E onde estavam engenheiros e fiscais do Departamento Estadual de Infraestrutura Rodoviária (DER) que não interditaram o tráfego naquela estrada e consertaram a tal ponte de madeira antes que o fato se consumasse? Ou nos acostumamos mesmo a trancar à chave a porta só depois que o ladrão nos rouba?

Tragédias como essa que aconteceu em Boquim não são para serem esquecidas ou minimizadas, mas para servirem como alerta e motivação para se corrigir erros e mudar radicalmente valores e sistemas carcomidos. Mas isso talvez em Pasárgada, sendo todos amigos do rei. Por aqui, o buraco é mais embaixo.   

Porque aqui, todos sabem, e se aceita com inquietante passividade, que são raríssimos os latifúndios onde se oferece transporte adequado, salário mínimo e condições de trabalho salubre aos trabalhadores rurais. Como a safra é sazonal e o trabalhador é volante, não se tem vínculo com quem contrata, tampouco interesse de lhes dar um tratamento humanizado enquanto mão-de-obra camponesa. O serviço beira a quase servidão. Muitos desses trabalhadores labutam de 12 a 14 horas por dia, em condições desumanas.

E como por aqui se repete a lógica do Brasil afora, de concentração de terras crescente e mecanização rural cada vez mais acelerada, cresce também o número de trabalhadores rurais sem ocupação remunerada. Estes não têm terra para plantar, porque a reforma agrária não anda, e por isso, acabam nas mãos de atravessadores, que negociam a sua força de trabalho a qualquer preço e em quaisquer condições.

Quem não aceita, fica sem trabalho, sem condições de subsistência, sem dignidade e acabam engolidos pela pobreza severa. Humilhados, na próxima safra, serão presas fáceis dos contratantes de bóias-frias. Em condições mais do que adversas, sem ter a quem recorrer, são os primeiros a cair nas armadilhas do trabalho escravo ou semi-escravo, ainda comum neste Brasil sem justiça social.

E fica muito claro que tragédias como a registrada em Boquim envolvem não só a questão das péssimas condições de transporte, de salário e de trabalho dos bóias-frias, mas também as estradas por onde eles precisam trafegar, na boléia ou na carroceria de caminhões, sempre em iminente risco de vida. As vicinais, principalmente, grande parte em condições precárias, sempre guardando uma surpresa a cada curva, um susto a cada ponte de madeira na travessia de um rio, até a chuva e a noite trazem maus presságios, quando pegas pelo caminho, o que torna a viagem ainda mais perigosa.

É dura, muito dura a vida de bóia-fria. E, pode-se observar, os sete mortos em Boquim já caíram quase no esquecimento. As investigações, se é que vai haver alguma, chegarão em alguém? Os responsáveis pela contratação e transporte irregular dos bóias-frias serão punidos? Os responsáveis pela fiscalização de transporte irregular de passageiros e pelas pontes em estradas vicinais sofrerão algum processo administrativo com consequências? Ou serão mais sete vidas de trabalhadores rurais assalariados perdidas em vão, numa tragédia que poderia ter sido evitada?

Alguma coisa precisa ser feita. Evitar que mais mortes aconteçam é tarefa do Governo do Estado, dos municípios, do Ministério Público do Trabalho, sindicatos e da sociedade de uma forma geral. Não é possível mais se compactuar com as condições precárias de transporte e trabalho a que são submetidos os nossos bóias-frias, sejam catadores de laranja, cana-de-açúcar ou de qualquer outro produto agrícola, desses que só fazem gerar riqueza e bem estar para uns, miséria e morte para outros.