Nem “Primavera Árabe”, nem “Verão Europeu”, tampouco “Outono Americano”. Estou aqui para levantar a bandeira do movimento “Ocupem os Canteiros de Aracaju e Façam Seus Negócios”. Sim, porque diante do que estão permitindo construir no meio do canteiro central da Avenida Melício Machado, já próximo do seu final, é coisa para indignar qualquer um.
Um espaço público – um canteiro central entrecortando uma avenida –, de repente, não mais que de repente, é cercado por tapumes para se dar início às obras de construção de um posto de abastecimento de combustíveis. Quem passa sempre por ali chega a ter a impressão de que haverá uma reforma do espaço ou melhorias feitas pela Prefeitura, afinal, trata-se de um canteiro largo. Que nada! Vai se construir mesmo um posto de abastecimento para veículos, com aval da EMURB, DER e ADEMA para isso. Tudo devidamente legalizado, com as licenças necessárias todas liberadas!
A construção de um posto de combustíveis no meio de uma avenida movimentada – principalmente nos finais de semana – e após uma curva sinuosa, onde vira-e-mexe acontecem acidentes gravíssimos é possível? E a menos de 100 metros de várias casas? No Reino dos “Quem pode, pode; quem não pode, se sacode”, sim, é possível.
Fica fácil de observar a facilidades com que o capitalista esperto e voraz se apropria de qualquer espaço público para fazer multiplicar seus interesses monetários – e com o devido apoio dos poderes públicos municipal, estadual e federal.
Por mais que pipoquem argumentos de que naquela região é preciso um posto de combustíveis, porque o mais próximo fica a alguns quilômetros e, sem concorrente, o preço do litro vai às alturas; ou que não querer a construção da “imprescindível” obra no meio de um canteiro é mentalidade de cidade pequena, pois no Rio de Janeiro e outras grandes cidades, isso é o que mais tem, peço permissão para discordar dos dois argumentos com duas réplicas simples:
Para o primeiro, mesmo concordando com a máxima do capital que diz que a concorrência é necessária para baixar os preços dos produtos, por se tratar de um espaço público, não deveria haver também concorrência, conforme as leis do Estado capitalista e democrático, para usufruto de tal terreno? Por que um “iluminado” apenas ganhou o direito de explorar a área?
Para o segundo, acho uma estultice tal argumento. Essa mania de copiar tudo o que vem de fora cegamente, como se fosse coisa boa, coisa da modernidade, pode nos levar a sair da condição de uma cidade ainda com possibilidades de um mínimo planejamento urbano favorável à ordenação dos seus espaços para uma empilhada cidade de carros, cimento, gente e problemas.
Fora a questão de segurança. Como todos sabem, caso seja mesmo construído, teremos um posto de gasolina e outros combustíveis altamente voláteis em meio a uma rodovia estadual de fluxo rápido de carros, e logo após uma curva sinuosa – para quem vem no sentido Centro-Robalo. E ali já aconteceram graves acidentes automobilísticos. Então, os argumentos contrários são mais sólidos que os favoráveis.
Agora, eu pergunto: tivesse um Zé Qualquer tido a brilhante ideia de deslanchar naquela área um bom negócio, do tipo uma inofensiva banquinha de revistas ou um barzinho bem transado para alegrar a vida da vizinhança e dos que vão e vem pela avenida, as mesmas EMURB, DER e ADEMA liberariam? Duvido.
Certamente viriam laudos e mais laudos contrários às “estapafúrdias” ideias. Enfim, seriam muitas as razões elencadas pelas doutas autoridades técnicas para barrar esses possíveis empreendimentos. E o Zé Qualquer, coitado, ficaria chupando o dedo. Mas sendo a ideia construir no mesmo lugar um belo posto de combustíveis para alimentar sedentos veículos automotores, ah, isso pode! Licença já!
A lição que fica é que na selvageria da modernização das nossas cidades, o grande capital se apropria expropriando, toda e qualquer área que valha a pena ao capital, e não quer saber se o empreendimento leva riscos à vida e ao meio ambiente, ou mesmo se o espaço é público. Aliás, quanto mais público, melhor! Porque o que vale é o lucro que se possa gerar a partir do menor investimento privado possível. Puro e simples assim. E a roda do sistema continua a girar, e ai de quem ousar pará-la.
Caso a construção do posto de combustíveis no canteiro central da Avenida Melício Machado siga adiante, o recado dado é: todo canteiro central de avenida é espaço para se explorar comercialmente. Portanto, caro amigo, se tem um dinheirinho acumulado e está a fim de montar um negócio pomposo (esqueça bancas de revista e barzinhos, que isso não dá Ibope), corra atrás do seu canteiro. Se o iluminado do futuro posto de combustíveis da Melício Machado pode, por que você não?
Artigo nosso publicado no Jornal do Dia, na sua edição de domingo, 8/01/2012.
Jornalismo | Imprensa | Reflexões | Direito à Comunicação | Política | Cultura | Cidades | Meio Ambiente | Direitos Humanos | Visões de mundo | Bobagens afins...
Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meio Ambiente. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
sábado, 19 de março de 2011
Uma verdade inconveniente: reatores nucleares não duram 40, 60 anos...
Para quem ainda defende a energia nuclear, seria bom uma leitura desapaixonada do artigo abaixo... Só lembrando, Fukushima era tida com uma usina super moderna e à prova até mesmo de terremotos... Não foi isso que se viu na prática.
--
Professora da USP alerta: dizer que os reatores nucleares duram, em média, 40, 60 anos é blefe
Por Conceição Lemes*
Há no mundo 441 reatores nucleares em funcionamento. Estados Unidos são os que têm mais – 104. Seguem-se França (58), Japão (55), Federação Russa (32) Coréia (21), Índia e Inglaterra (19 cada), Canadá (18), Alemanha (17), Ucrânia (15), China (13), Suécia (10), Espanha (8), Bélgica (7), República Checa (7), Finlândia, Hungria e República Eslovaca (4 cada).
--
Professora da USP alerta: dizer que os reatores nucleares duram, em média, 40, 60 anos é blefe
Por Conceição Lemes*
Há no mundo 441 reatores nucleares em funcionamento. Estados Unidos são os que têm mais – 104. Seguem-se França (58), Japão (55), Federação Russa (32) Coréia (21), Índia e Inglaterra (19 cada), Canadá (18), Alemanha (17), Ucrânia (15), China (13), Suécia (10), Espanha (8), Bélgica (7), República Checa (7), Finlândia, Hungria e República Eslovaca (4 cada).
Vários países têm dois reatores: Argentina, Brasil, Bulgária, Paquistão, México, Romênia e África do Sul. Eslovênia, Armênia e Holanda possuem um.
Há 61 reatores em construção. Boa parte na China (24) e Federação Russa (11). Coreia tem cinco e Índia, quatro. Bulgária, Japão, República Eslovaca, Ucrânia, dois. Argentina, Brasil, França, Paquistão, Estados Unidos, Finlândia e Irã. Isso sem contar os muitos projetados – só no Brasil, 50 para os próximos 50 anos.
Esse novo impulso da energia nuclear está alicerçado em alguns fatores, especialmente estes:
1) Até as explosões dessa semana no complexo de Fukushima, Japão, acidente grave em usina nuclear já era história, memória, vaga lembrança. Dos 191 milhões de brasileiros, cerca de 80 milhões sequer eram nascidos quando houve o de Chernobyl, em 1986, Ucrânia (então parte da extinta União Soviética), considerado ainda o maior da história.
2) O modelo teórico de que o tempo de vida útil de um reator atômico é de 40 anos, prazo que foi estendido por mais 20. Ou seja, um reator duraria 60 anos.
3) A informação de alguns especialistas de que o reator seria a fonte produtora de energia que emitiria menos C02 (gás carbônico) na atmosfera, produzindo menos efeito estufa. Consequentemente, seria útil para reduzir o aquecimento global.
“Acontece que informações mais recentes revelam realidade diferente, geralmente omitida pelos defensores da energia nuclear”, alerta a professora Emico Okuno, doDepartamento de Física Nuclear do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP). “Para começar, não procede que o tempo médio de vida de um reator é 40 anos, 60 então nem fala. Isso é blefe.”
NOS EUA, OS REATORES DURAM, EM MÉDIA, 18,9 ANOS
Com base em modelos matemáticos, se estabeleceu que um reator tem vida útil média de cerca de 40 anos, agora de 60. É em cima desse prazo que se fixa o custo da energia nuclear.
Só que a prática está mostrando que eles duram muito menos. Dados até 2008 revelam que o tempo médio de vida dos reatores nos Estados Unidos é de 13,9 anos. Tempo máximo, 34 anos. E o mínimo, 1 ano. Lá, três funcionaram apenas um ano; e nove, em média, 7,6 anos.
“Eles foram fechados ou porque não eram economicamente viáveis ou porque tiveram algum tipo de problema”, diz a professora Emico. “Só os grandes acidentes tornam-se públicos, os menores, e eles ocorrem com frequência, não chegam à mídia.”
Na Alemanha, o tempo médio de vida dos reatores é de 13,8 anos. Tempo mínimo, 1 ano. Tempo máximo, 47 anos.
Na França, o tempo médio é de 19,6 anos. O mínimo, 9 anos. O máximo, 24.
Os do Reino Unido são os de vida mais longa: 34,7 anos, em média; mínimo, 18 anos; máximo, 47 anos.
“Portanto, a história de 40 e 60 anos, em média, é balela”, reforça a professora Emico, que, diga-se de passagem, não teve acesso a informações privilegiadas. “Elas estão no site da Agência Internacional de Energia Atômica, para quem quiser acessar. O que eu fiz foi analisar esses dados. As pessoas favoráveis à energia nuclear não mentem, mas elas também não contam, pois isso não lhes interessa dizer.”
Por falar nisso, quando termina a vida útil de um reator, ele tem de ser “destruído”. Esse processo chama-se descomissionamento. É a construção do reator ao contrário. Demora 60 anos para ele ser descomissionado totalmente e transformado num parque público. Isso sem contar o lixo radioativo de alta atividade que é o combustível exaurido produzido ao longo da existência dele.
O dinheiro gasto para o reator ser “destruído” é quase igual ao empregado para construí-lo. E quem paga essa conta? O governo ou a concessionária? Isso provavelmente não está escrito em lugar algum. É uma briga das boas.
CADEIA PRODUTIVA DE ENERGIA NUCLEAR PRODUZ MAIS CO2 DO QUE AHÍDRICA
“A informação de que a energia nuclear provocaria menor emissão de CO2 parece também que não é verdadeira”, observa a professora Emico. “Novos estudos indicam que a energia nuclear é mais poluente do que a hídrica.”
De uns três anos para cá, cientistas fizeram cálculos matemáticos dos níveis de emissão de CO2 das diferentes fontes de produção de energia. A partir daí elaboraram uma escala, indo do mais ao menos poluente. Em primeiro lugar, está o carvão, em segundo, o óleo combustível, em terceiro, gás, em quarto, a energia hídrica. Em seguida, energia solar, eólica, biomassa e – a menos produtora de CO2 – energia nuclear. Detalhe: esses autores consideraram a emissão de CO2 apenas no reator.
Mais recentemente outros cientistas decidiram levar em conta não apenas a emissão de CO2 no reator, mas em toda a cadeia produtiva para se obter a energia nuclear. Ou seja, desde a exploração do urânio na mina – é preciso dinamitá-la – até o seu enriquecimento para ser usado no reator como combustível.
Para se ter uma noção dessa cadeia, o urânio explorado no Brasil (quarta reserva do mundo) é extraído em Caetité (BA). Aí, é transformado em yellow cake, um pó amarelo. Via porto de Salvador, vai para o Canadá, onde é transformado em gás. Do Canadá vai para a França, para ser enriquecido. De lá, volta ao Brasil, para ser transformado em pastilhas, que serão usadas nos reatores de Angra 1 e Angra 2, no Rio de Janeiro. Há informações de que o Brasil já detém a tecnologia para fazer tudo isso aqui. De qualquer forma, o urânio teria de passar por etapas.
Pois bem, há estudos revelando que toda essa cadeia produtiva acaba produzindo mais CO2 do que a energia hídrica. Assim, a energia nuclear ocuparia o quarto lugar em termos de poluição e a energia hídrica, a quinta.
“Na verdade, todas as formas de energia têm algum tipo de problema”, pondera a professora. “A energia hídrica é limpa, mas leva à inundação de grandes áreas. Já a energia solar ainda é muito cara.”
E qual a posição da professora Emico Okuno em relação aos reatores nucleares?
“França e Japão, por exemplo, não têm muita alternativa. Já o Brasil, por enquanto, não precisa de reator para geração de energia”, expõe. “O Brasil tem condições de produzir muita energia a partir da energia hídrica, eólica, solar. No Nordeste do Brasil, há sol para dar e vender.”
“O Brasil, porém, precisa de reator nuclear para produção de materiais radioativos, para uso na Medicina”, defende a professora. “É para não ficarmos reféns de outros países, como aconteceu no ano passado. O reator do Canadá que fornecia radioisótopos teve de fechar. Praticamente o mundo inteiro ficou na mão. O Brasil conseguiu um pouco com a Argentina. Mas o conveniente é que tenhamos a nossa própria produção de material radioativo para fins médicos.”
Quando há um grave acidente nuclear, a discussão sobre os reatores reacende. Foi assim pós Three Mile Island, Pensilvânia, EUA, em 1979. Depois, pós Chernobyl. Com Fukushima não será diferente. A diferença é que agora há informações mais precisas para o debate. Por exemplo, considerando que duram muito menos do que se supunha, será muitos mais serão construídos? Será que do ponto de vista econômico se justificam, já que têm menor tempo de vida? E do ponto de vista ambiental, considerando que possivelmente sejam mais poluentes do que as energias hídrica, eólica, solar e a biomassa?
O fato é que por mais seguros que os reatores sejam, eles têm um risco. Fukushima está aí para nos fazer refletir. Infelizmente.
*Matéria publicada originalmente no Vi o mundo.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Praias impróprias para banho: a culpa é nossa mesmo
Causa singular estranheza o espanto das pessoas e, mais ainda, dos nossos gestores ambientais a explosão de coliformes fecais em todo o litoral aracajuano, da Praia dos Artistas até a dos Náufragos. Quase 7.000 por 100ml, quando o tolerável é de espantosos 1.000 coliformes termotolerantes por 100ml. E o vilão disso tudo foi logo encontrado: as fortes chuvas que caíram nas semanas anteriores em toda a capital e circunvizinhanças. Coitado de São Pedro, pagou o pato!
Mas a verdade é que a culpa não é coisíssima nenhuma da chuva, que cai porque tem que cair mesmo, respeitando-se leis simples da natureza, que aprendemos nas primeiras lições de Ciências na escola: calor forte, alta evaporação da água, acúmulo desses vapores na atmosfera formando nuvens, até que o choque com uma massa de ar fria torna as partículas de água mais pesadas e elas caem em forma de chuva.
Não, definitivamente, não. Por mais pesadas que tenham sido essas chuvas, a culpa não pode ser associada a elas, mas àqueles que de fato são os responsáveis pelas toneladas de coliformes fecais que entulharam o mar de Aracaju: os homens.
É muito fácil culpar a natureza pelas mazelas e sujeiras que nós mesmos produzimos, diariamente. Quando a natureza responde com fúria, as pessoas se apressam em demonizá-la ou em ver os fenômenos resultantes como pragas divinas lançadas pelos deuses em função dos pecados acumulados da humanidade. Nunca é pelas razões mais simples: porque somos prepotentes, predatórios e negligentes com a natureza, além de passivos e coniventes com aqueles a quem deixamos nos governar.
Para onde as pessoas acham que toda a sua imundície diária e o lixo que produzem vão? Desaparecem com a descarga da privada depois higienizada com Pinho Sol, ou com os sacos de lixo levados pelos lixeiros ao fim do dia? Pense um pouco no quando produzimos diariamente de excremento e lixo humanos. E para onde vai toda essa porcaria?
Simples. Sem o devido tratamento, as toneladas e toneladas de esgoto e lixo que produzimos vão parar num rio próximo que, por sua vez, vai desembocar no mar. Mesmo o lixo que produzimos, ficando ele estocado num aterro sem tratamento, acaba chegando ao mar, graças ao chorume, que penetra no solo ou é levado pelas chuvas até o rio mais próximo.
A fossa encheu, está transbordando? Fácil. Chama-se o caminhão limpa-fossa. Mas alguém já se perguntou onde é despejado todo aquele material fétido levado pelo limpa-fossa?
Então, numa região como a Grande Aracaju, ocupada por 800 mil habitantes, onde não há aterro sanitário mas lixões, e onde não existe tratamento do esgoto doméstico e industrial, para onde as pessoas acham que as porcarias que produzem vão? Para o mar, essa é a grande verdade.
Deduz-se, então, que, sendo o homem capaz de produzir grande quantidade de lixo e excremento, a falta de investimentos e políticas públicas voltadas para o tratamento do lixo e do esgoto e para a mitigação da presença impactante, do ponto de vista socioambiental, de 800 mil pessoas numa área de 800 km² fazem com que tudo seja muito, mas muito pior. Cedo ou tarde, há que se pagar o preço. E ele é alto, como estamos vendo agora.
E isso vem com os séculos de industrialização e urbanização tocadas pelas gerações que sempre preferiram ignorar os enormes problemas que produziram para empurrá-los para as que vieram pela frente. E cá estamos nós, a repetir o mesmo erro.
Moradores antigos de Aracaju se lembram muito bem de uma tal Praia Formosa, que por ser tão limpa e bela, recebia esse nome. Pois bem, com os anos de ocupação desenfreada da região entre os bairros Centro, São José e 13 de Julho, com o aumento dos esgotos domésticos caindo nos canais, somado à poluição que vinha das fábricas do Bairro Industrial (que também tinha uma bela praia, até as indústrias fabris tomarem o local) correndo pelo Rio Sergipe, a Praia Formosa foi perdendo o seu encanto e também os seus frequentadores, até tornar-se um grande esgoto a céu aberto, obrigando até mesmo a mudança do nome da praia, que acabou chamada apenas pelo nome do bairro, 13 de Julho.
Espanta-me até hoje ver pessoas pescando e se banhando por ali, geralmente, pessoas humildes, desavisadas. Mas o que chama mais a atenção é a falta de sensibilidade das pessoas que moram por ali, que preferem manter-se presas ao alto padrão dos seus apartamentos classe A e encher a boca pra dizer que moram na 13 de julho, como se fosse título de nobreza, a encarar que, no fundo no fundo, são moradores de um esgotão a céu aberto, cujo mau cheiro da imundície que eles e seus vizinhos de bairro produzem, quando sobe pra valer, impossibilita uma apreciada melhor da paisagem da Ilha de Santa Luzia, ao longe, graças às línguas negras de esgoto que correm em meio ao mangue...
E não fosse esse super sobrevivente, o mangue, a paisagem seria ainda mais melancólica. Se bem que esse mangue da 13 de Julho é passível de estudos mais apurados por parte dos biólogos. Ou ele reagiu bem às “cacas e xixas” da nobreza mediana local misturada à plebe intrusa das vizinhanças, ou é mesmo uma grande aberração da natureza. Nunca vi mangue tão alto e viçoso em área tão poluída, para (a falsa) alegria dos adeptos do Cooper e das pedaladas naquele Calçadão.
E assim caminha a humanidade, com passos de formiga em sem vontade... já dizia Lulu Santos. Até quando vamos ficar como meros e passivos observadores dessa tragédia ecológica? Até quando vamos fingir que é normal não poder tomar banho na Orlinha do Bairro Industrial, na ex-Praia Formosa, hoje 13 de Julho, na Coroa do Meio e na Praia dos Artistas, estas poluídas desde ontem, agora e sempre? Vamos aceitar com passividade essa agressão até que todo o litoral aracajuano esteja impróprio para banho? Aonde levar nossos filhos, e depois os filhos dos nossos filhos para um dia na praia, sendo aracajuano? Para Alagoas ou Bahia?
Claro, o problema do esgoto doméstico sem tratamento é uma realidade nacional e de difícil solução a curto prazo. Bahia e Alagoas certamente têm problemas semelhantes. Mas, começando por fazer o dever de casa, é preciso que os cidadãos locais e os ministérios públicos – Estadual e Federal – se unam para exigir de nossos governos e órgãos ambientais, sempre ineficientes e morosos no quesito meio ambiente (a não ser que seja para a especulação imobiliária), que comecem desde já a trabalhar para mudar esse quadro deplorável. Colocar placas de aviso “Praia imprópria para banho” é muito fácil e cômodo.
O que se quer é celeridade no processo de instalação do aterro sanitário da Grande Aracaju e investimentos maciços no aumento da oferta de esgotamento sanitário (construindo onde não existe e substituindo os esgotos clandestinos), como também, e principalmente, no tratamento dos esgotos domésticos e industriais (exigindo das indústrias a limpeza ou reaproveitamento dos seus dejetos), entre outras iniciativas, porque senão, em breve, a Praia Formosa vai se estender até o final da Praia dos Náufragos, e aí, estaremos todos nadando na merda, literalmente.
Mas a verdade é que a culpa não é coisíssima nenhuma da chuva, que cai porque tem que cair mesmo, respeitando-se leis simples da natureza, que aprendemos nas primeiras lições de Ciências na escola: calor forte, alta evaporação da água, acúmulo desses vapores na atmosfera formando nuvens, até que o choque com uma massa de ar fria torna as partículas de água mais pesadas e elas caem em forma de chuva.
Não, definitivamente, não. Por mais pesadas que tenham sido essas chuvas, a culpa não pode ser associada a elas, mas àqueles que de fato são os responsáveis pelas toneladas de coliformes fecais que entulharam o mar de Aracaju: os homens.
É muito fácil culpar a natureza pelas mazelas e sujeiras que nós mesmos produzimos, diariamente. Quando a natureza responde com fúria, as pessoas se apressam em demonizá-la ou em ver os fenômenos resultantes como pragas divinas lançadas pelos deuses em função dos pecados acumulados da humanidade. Nunca é pelas razões mais simples: porque somos prepotentes, predatórios e negligentes com a natureza, além de passivos e coniventes com aqueles a quem deixamos nos governar.
Para onde as pessoas acham que toda a sua imundície diária e o lixo que produzem vão? Desaparecem com a descarga da privada depois higienizada com Pinho Sol, ou com os sacos de lixo levados pelos lixeiros ao fim do dia? Pense um pouco no quando produzimos diariamente de excremento e lixo humanos. E para onde vai toda essa porcaria?
Simples. Sem o devido tratamento, as toneladas e toneladas de esgoto e lixo que produzimos vão parar num rio próximo que, por sua vez, vai desembocar no mar. Mesmo o lixo que produzimos, ficando ele estocado num aterro sem tratamento, acaba chegando ao mar, graças ao chorume, que penetra no solo ou é levado pelas chuvas até o rio mais próximo.
A fossa encheu, está transbordando? Fácil. Chama-se o caminhão limpa-fossa. Mas alguém já se perguntou onde é despejado todo aquele material fétido levado pelo limpa-fossa?
Então, numa região como a Grande Aracaju, ocupada por 800 mil habitantes, onde não há aterro sanitário mas lixões, e onde não existe tratamento do esgoto doméstico e industrial, para onde as pessoas acham que as porcarias que produzem vão? Para o mar, essa é a grande verdade.
Deduz-se, então, que, sendo o homem capaz de produzir grande quantidade de lixo e excremento, a falta de investimentos e políticas públicas voltadas para o tratamento do lixo e do esgoto e para a mitigação da presença impactante, do ponto de vista socioambiental, de 800 mil pessoas numa área de 800 km² fazem com que tudo seja muito, mas muito pior. Cedo ou tarde, há que se pagar o preço. E ele é alto, como estamos vendo agora.
E isso vem com os séculos de industrialização e urbanização tocadas pelas gerações que sempre preferiram ignorar os enormes problemas que produziram para empurrá-los para as que vieram pela frente. E cá estamos nós, a repetir o mesmo erro.
Moradores antigos de Aracaju se lembram muito bem de uma tal Praia Formosa, que por ser tão limpa e bela, recebia esse nome. Pois bem, com os anos de ocupação desenfreada da região entre os bairros Centro, São José e 13 de Julho, com o aumento dos esgotos domésticos caindo nos canais, somado à poluição que vinha das fábricas do Bairro Industrial (que também tinha uma bela praia, até as indústrias fabris tomarem o local) correndo pelo Rio Sergipe, a Praia Formosa foi perdendo o seu encanto e também os seus frequentadores, até tornar-se um grande esgoto a céu aberto, obrigando até mesmo a mudança do nome da praia, que acabou chamada apenas pelo nome do bairro, 13 de Julho.
Espanta-me até hoje ver pessoas pescando e se banhando por ali, geralmente, pessoas humildes, desavisadas. Mas o que chama mais a atenção é a falta de sensibilidade das pessoas que moram por ali, que preferem manter-se presas ao alto padrão dos seus apartamentos classe A e encher a boca pra dizer que moram na 13 de julho, como se fosse título de nobreza, a encarar que, no fundo no fundo, são moradores de um esgotão a céu aberto, cujo mau cheiro da imundície que eles e seus vizinhos de bairro produzem, quando sobe pra valer, impossibilita uma apreciada melhor da paisagem da Ilha de Santa Luzia, ao longe, graças às línguas negras de esgoto que correm em meio ao mangue...
E não fosse esse super sobrevivente, o mangue, a paisagem seria ainda mais melancólica. Se bem que esse mangue da 13 de Julho é passível de estudos mais apurados por parte dos biólogos. Ou ele reagiu bem às “cacas e xixas” da nobreza mediana local misturada à plebe intrusa das vizinhanças, ou é mesmo uma grande aberração da natureza. Nunca vi mangue tão alto e viçoso em área tão poluída, para (a falsa) alegria dos adeptos do Cooper e das pedaladas naquele Calçadão.
E assim caminha a humanidade, com passos de formiga em sem vontade... já dizia Lulu Santos. Até quando vamos ficar como meros e passivos observadores dessa tragédia ecológica? Até quando vamos fingir que é normal não poder tomar banho na Orlinha do Bairro Industrial, na ex-Praia Formosa, hoje 13 de Julho, na Coroa do Meio e na Praia dos Artistas, estas poluídas desde ontem, agora e sempre? Vamos aceitar com passividade essa agressão até que todo o litoral aracajuano esteja impróprio para banho? Aonde levar nossos filhos, e depois os filhos dos nossos filhos para um dia na praia, sendo aracajuano? Para Alagoas ou Bahia?
Claro, o problema do esgoto doméstico sem tratamento é uma realidade nacional e de difícil solução a curto prazo. Bahia e Alagoas certamente têm problemas semelhantes. Mas, começando por fazer o dever de casa, é preciso que os cidadãos locais e os ministérios públicos – Estadual e Federal – se unam para exigir de nossos governos e órgãos ambientais, sempre ineficientes e morosos no quesito meio ambiente (a não ser que seja para a especulação imobiliária), que comecem desde já a trabalhar para mudar esse quadro deplorável. Colocar placas de aviso “Praia imprópria para banho” é muito fácil e cômodo.
O que se quer é celeridade no processo de instalação do aterro sanitário da Grande Aracaju e investimentos maciços no aumento da oferta de esgotamento sanitário (construindo onde não existe e substituindo os esgotos clandestinos), como também, e principalmente, no tratamento dos esgotos domésticos e industriais (exigindo das indústrias a limpeza ou reaproveitamento dos seus dejetos), entre outras iniciativas, porque senão, em breve, a Praia Formosa vai se estender até o final da Praia dos Náufragos, e aí, estaremos todos nadando na merda, literalmente.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
São as águas de março... caindo pesadas em abril
Março se foi, mas deixou suas águas – e quanta água – na atmosfera, e elas acabaram por despencar, sem trégua, por esses dias, deixando um rastro de destruição que começa no sul do país e chega à região norte, passando por estas plagas, despejando sobre muitas cidades sergipanas a fúria das águas benditas – não dá pra amaldiçoar a água; passada a tempestade, certamente virá a bonança e fartura nas colheitas, além de manter os reservatórios aquíferos em bons níveis.
Mas claro, onde cai água demais, há sempre destruição, mortes e muitos, muitos desabrigados.
Então, se há que se amaldiçoar alguém, que sejam os homens, o poder público e, principalmente, os maus políticos, aqueles que buscam as gentes humildes somente quando precisam arrancar-lhes os votos, e depois de eleitos, um abraço. Ficam apenas as promessas, a demagogia e os projetos de duvidosa solução a serem exibidos em belas maquetes e plantas baixas, mercadorias de ilusão de prestidigitadores de mão cheia.
Os vendedores de ilusão da política estão por aí, aos borbotões, alimentados justamente pela miséria e as desgraças alheias. Bestas feras das mais malignas, se reproduzem feito coelho, e o pior, alguns são recicláveis, transmutáveis – mudam na aparência, mas na essência, permanecem os mesmos. E esses bichos perversos não deixam a política – tampouco o povo em paz – nem com reza braba.
Com as fortes chuvas que caem, sem dó nem piedade, sobre quase todo Estado desde a quinta-feira 8, muitas dessas bestas feras vão se revelando, e as mazelas aflorando ao sabor das torrentes. E as notícias que a cada instante chegam traçam um panorama desolador em muitos municípios e também na nossa “moderna” capital da qualidade de vida,
São Cristóvão, Carmópolis, Tobias Barreto, Poço Redondo, Nossa Senhora do Socorro, Aracaju... em cada canto, uma história de sofrimento e perdas com as chuvas. E o povo vai assim, sofrendo e sofrendo, eleição após eleição.
Não faz sentido, e não dá pra aceitar. Apesar das surpresas da natureza, que de quando em quando apronta uma pra cima da gente – mas isso ocorre desde que o mundo é mundo –, é inconcebível que situações como as que observamos resultante das fortes chuvas de outono ainda persistam. Muitos desses problemas são do conhecimento das autoridades há tempos, acontecem todos os anos, mas nunca são resolvidos de forma permanente. Aliás, muitos desses problemas são varridos pra debaixo do tapete, e ali ficam, até que uma grande tragédia aconteça.
Portanto, nada de amaldiçoar a natureza por suas tempestades invariáveis, tampouco jogar a culpa pelas tragédias resultantes dos temporais nas costas dos pobres, como fez o governador do Rio, Sérgio Cabral, que em entrevista à GloboNews, dia desses, afirmou, com todas as letras, que a culpa pelas mortes nos desmoronamentos de encostas na capital carioca era dos pobres que ali construíram suas casas – como se estes tivessem outra opção. A velha e manjada criminalização da pobreza. Rico construindo mansões em encostas é lindo, panorâmico e excêntrico; pobre, fazendo o mesmo, está invadindo e destruindo as matas, pondo em risco a sociedade. Cômico, se não fosse trágico.
Se há que se amaldiçoar alguém, então que sejam esses mesmos que criminalizam a pobreza e aqueles que pouco fazem para buscar soluções concretas e duradouras para o enfrentamento das intempéries, sejam quais forem. Não se está pedindo aqui nenhum milagre, ou que se construam casas capazes de flutuar ante uma enchente, ou uma máquina de chuva para levar água onde a seca castiga. O que se pede é que se busquem os meios mais modernos de construção, as ferramentas disponíveis e as tecnologias existentes e as usem para mitigar os danos causados por forças inclementes da natureza. Nada demais. Tudo é questão de planejamento e vontade política, duas coisas que estão rareando por estas plagas, infelizmente!
Mas claro, onde cai água demais, há sempre destruição, mortes e muitos, muitos desabrigados.
Então, se há que se amaldiçoar alguém, que sejam os homens, o poder público e, principalmente, os maus políticos, aqueles que buscam as gentes humildes somente quando precisam arrancar-lhes os votos, e depois de eleitos, um abraço. Ficam apenas as promessas, a demagogia e os projetos de duvidosa solução a serem exibidos em belas maquetes e plantas baixas, mercadorias de ilusão de prestidigitadores de mão cheia.
Os vendedores de ilusão da política estão por aí, aos borbotões, alimentados justamente pela miséria e as desgraças alheias. Bestas feras das mais malignas, se reproduzem feito coelho, e o pior, alguns são recicláveis, transmutáveis – mudam na aparência, mas na essência, permanecem os mesmos. E esses bichos perversos não deixam a política – tampouco o povo em paz – nem com reza braba.
Com as fortes chuvas que caem, sem dó nem piedade, sobre quase todo Estado desde a quinta-feira 8, muitas dessas bestas feras vão se revelando, e as mazelas aflorando ao sabor das torrentes. E as notícias que a cada instante chegam traçam um panorama desolador em muitos municípios e também na nossa “moderna” capital da qualidade de vida,
São Cristóvão, Carmópolis, Tobias Barreto, Poço Redondo, Nossa Senhora do Socorro, Aracaju... em cada canto, uma história de sofrimento e perdas com as chuvas. E o povo vai assim, sofrendo e sofrendo, eleição após eleição.
Não faz sentido, e não dá pra aceitar. Apesar das surpresas da natureza, que de quando em quando apronta uma pra cima da gente – mas isso ocorre desde que o mundo é mundo –, é inconcebível que situações como as que observamos resultante das fortes chuvas de outono ainda persistam. Muitos desses problemas são do conhecimento das autoridades há tempos, acontecem todos os anos, mas nunca são resolvidos de forma permanente. Aliás, muitos desses problemas são varridos pra debaixo do tapete, e ali ficam, até que uma grande tragédia aconteça.
Portanto, nada de amaldiçoar a natureza por suas tempestades invariáveis, tampouco jogar a culpa pelas tragédias resultantes dos temporais nas costas dos pobres, como fez o governador do Rio, Sérgio Cabral, que em entrevista à GloboNews, dia desses, afirmou, com todas as letras, que a culpa pelas mortes nos desmoronamentos de encostas na capital carioca era dos pobres que ali construíram suas casas – como se estes tivessem outra opção. A velha e manjada criminalização da pobreza. Rico construindo mansões em encostas é lindo, panorâmico e excêntrico; pobre, fazendo o mesmo, está invadindo e destruindo as matas, pondo em risco a sociedade. Cômico, se não fosse trágico.
Se há que se amaldiçoar alguém, então que sejam esses mesmos que criminalizam a pobreza e aqueles que pouco fazem para buscar soluções concretas e duradouras para o enfrentamento das intempéries, sejam quais forem. Não se está pedindo aqui nenhum milagre, ou que se construam casas capazes de flutuar ante uma enchente, ou uma máquina de chuva para levar água onde a seca castiga. O que se pede é que se busquem os meios mais modernos de construção, as ferramentas disponíveis e as tecnologias existentes e as usem para mitigar os danos causados por forças inclementes da natureza. Nada demais. Tudo é questão de planejamento e vontade política, duas coisas que estão rareando por estas plagas, infelizmente!
sexta-feira, 26 de março de 2010
Para reflexão: Não à energia nuclear nos EUA
Não sou muito fã do culto ao Tio Sam como potência mundial, etc. e tal, até porque, o império ianque já vem bambeando das pernas, como um velho paquiderme adoecido, há muito, e já já a potência amarela, a China, passar-lhe-á a rasteira. Mas, para dar continuidade ao efervescente debate sobre usinas nucleares, tema do meu post anterior, posto agora um artigo fenomenal, escrito por um ex-candidato à presidente norte-americano pelo PV, que desmonta o discurso falacioso que vem sendo disseminado em Sergipe - para justificar a possível vinda de uma usina nuclear para Canindé -, de que até o presidente Obama estaria retomando a matriz nuclear nos EUA depois de décadas sem levantar nenhum desses elefantes brancos, resultado do horror que o povo norte-americano tomou delas após a quase tragédia nuclear na usina de Three Mile Island, em 1979 (seria a Chernobyl ianque).
E, no artigo, eis a explicação para esse súbito interesse do Obama: um tremendo lobby da indústria termonuclear estadunidense (que tem lá seus tentáculos poderosos por esta Pindorama de muitas saúvas e pouca saúde), com dinheiro grosso pra comprar o silêncio e a conivência dos congressistas, sejam democratas ou republicanos.
Vale a pena a leitura desse artigo (e sua replicação). Enfim, sugeriria ao governador Marcelo Déda que fizesse uma profunda leitura desse texto. Quem sabe assim, não pára de alardear que o Barack é um barato por querer levantar mais umas usininhas atômicas em seu quintal. Ah! O artigo me foi enviado pelo companheiro ecologista Professor Palomares, da ONG Água é Vida, de Estância. Valeu, professor!
--
Não à energia nuclear nos EUA
Por Ralph Nader*
Uma geração de estadunidenses cresceu sem ver nem ao menos uma construção de usina nuclear desde o episódio quase catastrófico de Three Mile Island, em 1979. Não foram expostos aos custos, perigos e riscos de segurança nacional associados às operações e grandes quantidades de lixo nuclear, nem à construção de estruturas de armazenamento que garantam a segurança do país por vários anos.
Os estadunidenses precisam se informar rapidamente, pois lobistas da indústria de energia atômica querem pôr na conta dos cidadãos a retomada nuclear. A menos que convençamos o Congresso a brecar esta forma excessivamente suja e complexa de aquecer água, gerando vapor para produção de energia, estaremos pagando por pesquisas, empréstimos e um seguro que poderia gerar um rombo estimado em trilhões de dólares, caso ocorra apenas um desastre– de acordo com a Comissão de Regulamentação Nuclear – isso sem contar com o vasto número de casualidades em longo prazo.
Os participantes desta roleta russa da indústria nuclear alegam que um acidente do nível 9 nunca ocorrerá. Que nenhum dos trens de carga, caminhões de frete e barcas carregando lixo tóxico sofrerá qualquer tipo de acidente catastrófico. Que terroristas certamente ignorarão as usinas atômicas e a possibilidade de sequestrar material radioativo; darão preferência a ataques de menor impacto e destruição. O pior acidente em um reator nuclear ocorreu em 1986, em Chernobyl, Ucrânia. Apesar de ter uma estrutura diferente das usinas estadunidenses, a resultante falha na retenção do material radioativo liberou uma nuvem tóxica que se espalhou ao redor do Planeta, concentrando- se, porém, com maior densidade em Belarus, Ucrânia, e Rússia Ocidental, e também sobre 40% do território europeu.
Por razões diferentes e por questões de interesse nacional e comercial, os números imediatos de mortes e doenças ligadas à radioatividade e as devastações em longo prazo causadas por essa forma invisível e quieta de violência, foram reduzidos. Eles também não mostraram muito interesse em monitorar e pesquisar os efeitos posteriores gerados por exposição à radioatividade.
No entanto, chega agora a mais abrangente tradução em inglês do atual relatório científico intitulado “Chernobyl: o impacto das consequências de uma catástrofe nas pessoas e no meio ambiente”, cujo autor é o biólogo Alexey V. Yablokov, membro da prestigiada Academia Russa de Ciência.
Podendo ser adquirida na Academia de Ciência de Nova Iorque (visite o site nyas.org/annals) , a análise, com um número densíssimo de referências, cobre os efeitos da exposição à radioatividade em grau agudo em socorristas e moradores daquela área que sofrem de doenças crônicas. O jornal estadunidenses “Today” confirma a reportagem: “Mais de 6 milhões de pessoas ainda vivem em áreas com níveis perigosos de contaminação – terras que continuarão contaminadas durante décadas e até séculos.
Voltamos aos EUA, onde, de forma deplorável, o Presidente Barak Obama insiste na criação de usinas “seguras e limpas de energia atômica”. Ele acaba de fazer um pedido de acréscimo de orçamento em US$ 54 bilhões para garantias de empréstimos saindo do bolso dos cidadãos, em cima dos US$ 18 bilhões previamente estipulados ainda na Era Bush. Como bem se sabe, os investidores de Wall Street não farão empréstimos às companhias de energia para erguer novas usinas nucleares em território nacional, que custam por volta de US$12 bilhões, caso o governo do Tio Sam não garanta 100% do investimento.
O estranho é que se essas usinas são tão eficientes, tão seguras, por que será que elas não são construídas sem as garantias de riscos pelo capital privado? A resposta para essa pergunta veio da declaração feita por Amory B. Lovins, Cientista chefe do Instituto Rocky Mountain, em Março de 2008, pouco antes do encontro com a Câmara de Representantes dos Estados Unidos, e o Select Committee on Energy Independence (rmi.org). Sua tese é esta: “a expansão da indústria de energia nuclear reduziria e retardaria os projetos de proteção climática e nossa segurança quanto à questão de energia... mas não sobreviveria ao apetite do capitalismo de livre mercado.”
Defendendo seus argumentos de forma clara, Lovins, consultor do Departamento de Defesa dos EUA, demonstrou através de números e outros dados que a energia nuclear “está perdendo drasticamente competitividade no mercado global quando comparada às energias limpas ou de baixo teor de emissão carbônica, que produzem mais soluções por dólar gasto em bem menos tempo”. Isso sem incluir os riscos de acidente e sabotagem. Segundo ele, “já que não é econômica e bastante desnecessária [a energia nuclear], não foi preciso incluir esses outros atributos”. Energias renováveis (ex.: energia eólica), co-geração de energia e usinas eficientes já são superiores e mais fáceis de custear. Desafio qualquer representante da indústria nuclear ou da Academia a debater com Lovins no National Press Club em Washington D.C., mediado por um representante neutro, ou diante do Comitê do Congresso.
No entanto, uma onda de lobistas da indústria nuclear está ganhando força no Congresso, atirando dinheiro para todos os lados sob o falso pretexto de preocupar-se com as questões relacionadas ao aquecimento global e a utilização de combustível fóssil.
Os críticos da energia nuclear que detém certo poder de influência no Congresso querem que as propostas foquem nas mudanças climáticas. Para combater a oposição, eles negociaram um acordo que dava status a reatores nucleares com garantias de empréstimos e outros subsídios em legislações semelhantes, já aprovados pelo Congresso, porém, como de costume, que ainda transitam a passo de cágado no Senado.
Experientes e firmes oponentes da energia atômica e líderes nas questões de combate às mudanças do clima, como o congressista Ed Makey (D-MA), permanecem calados enquanto republicanos (que amam os subsídios do Governo) e alguns democratas esperneiam por energia nuclear. Todo esse alarde desvaloriza o esforço de organizações como Union of Concerned Scientists, NIRS, Friends of the Earth e outros grupos de cidadãos bem estabelecidos que lutam por meios mais seguros, eficientes, rápidos e limpos de produção de energia para nosso país e também para o mundo.
Recentemente, um panfleto bem desenvolvido e documentado do Beyond Nuclear resumiu o argumento contra a energia nuclear em três palavras: “cara, perigosa, suja”. A claridade e o detalhamento preciso do documento torna-o esclarecedor tanto para amigos, vizinhos, quanto para colegas de trabalho. É possível baixá-lo de graça para reprodução livre no site www.BeyondNuclear. org. Vale a pena gastar os 10-15 minutos que levam para absorver certas verdades a respeito dessa complexa tecnologia – repleta de problemas e altos valores de custo de manutenção – e que está na pauta do Governo desde 1950.
*Economista e político. Ex-candidato “a presidência dos EUA pelo Partido Verde
Uma geração de estadunidenses cresceu sem ver nem ao menos uma construção de usina nuclear desde o episódio quase catastrófico de Three Mile Island, em 1979. Não foram expostos aos custos, perigos e riscos de segurança nacional associados às operações e grandes quantidades de lixo nuclear, nem à construção de estruturas de armazenamento que garantam a segurança do país por vários anos.
Os estadunidenses precisam se informar rapidamente, pois lobistas da indústria de energia atômica querem pôr na conta dos cidadãos a retomada nuclear. A menos que convençamos o Congresso a brecar esta forma excessivamente suja e complexa de aquecer água, gerando vapor para produção de energia, estaremos pagando por pesquisas, empréstimos e um seguro que poderia gerar um rombo estimado em trilhões de dólares, caso ocorra apenas um desastre– de acordo com a Comissão de Regulamentação Nuclear – isso sem contar com o vasto número de casualidades em longo prazo.
Os participantes desta roleta russa da indústria nuclear alegam que um acidente do nível 9 nunca ocorrerá. Que nenhum dos trens de carga, caminhões de frete e barcas carregando lixo tóxico sofrerá qualquer tipo de acidente catastrófico. Que terroristas certamente ignorarão as usinas atômicas e a possibilidade de sequestrar material radioativo; darão preferência a ataques de menor impacto e destruição. O pior acidente em um reator nuclear ocorreu em 1986, em Chernobyl, Ucrânia. Apesar de ter uma estrutura diferente das usinas estadunidenses, a resultante falha na retenção do material radioativo liberou uma nuvem tóxica que se espalhou ao redor do Planeta, concentrando- se, porém, com maior densidade em Belarus, Ucrânia, e Rússia Ocidental, e também sobre 40% do território europeu.
Por razões diferentes e por questões de interesse nacional e comercial, os números imediatos de mortes e doenças ligadas à radioatividade e as devastações em longo prazo causadas por essa forma invisível e quieta de violência, foram reduzidos. Eles também não mostraram muito interesse em monitorar e pesquisar os efeitos posteriores gerados por exposição à radioatividade.
No entanto, chega agora a mais abrangente tradução em inglês do atual relatório científico intitulado “Chernobyl: o impacto das consequências de uma catástrofe nas pessoas e no meio ambiente”, cujo autor é o biólogo Alexey V. Yablokov, membro da prestigiada Academia Russa de Ciência.
Podendo ser adquirida na Academia de Ciência de Nova Iorque (visite o site nyas.org/annals) , a análise, com um número densíssimo de referências, cobre os efeitos da exposição à radioatividade em grau agudo em socorristas e moradores daquela área que sofrem de doenças crônicas. O jornal estadunidenses “Today” confirma a reportagem: “Mais de 6 milhões de pessoas ainda vivem em áreas com níveis perigosos de contaminação – terras que continuarão contaminadas durante décadas e até séculos.
Voltamos aos EUA, onde, de forma deplorável, o Presidente Barak Obama insiste na criação de usinas “seguras e limpas de energia atômica”. Ele acaba de fazer um pedido de acréscimo de orçamento em US$ 54 bilhões para garantias de empréstimos saindo do bolso dos cidadãos, em cima dos US$ 18 bilhões previamente estipulados ainda na Era Bush. Como bem se sabe, os investidores de Wall Street não farão empréstimos às companhias de energia para erguer novas usinas nucleares em território nacional, que custam por volta de US$12 bilhões, caso o governo do Tio Sam não garanta 100% do investimento.
O estranho é que se essas usinas são tão eficientes, tão seguras, por que será que elas não são construídas sem as garantias de riscos pelo capital privado? A resposta para essa pergunta veio da declaração feita por Amory B. Lovins, Cientista chefe do Instituto Rocky Mountain, em Março de 2008, pouco antes do encontro com a Câmara de Representantes dos Estados Unidos, e o Select Committee on Energy Independence (rmi.org). Sua tese é esta: “a expansão da indústria de energia nuclear reduziria e retardaria os projetos de proteção climática e nossa segurança quanto à questão de energia... mas não sobreviveria ao apetite do capitalismo de livre mercado.”
Defendendo seus argumentos de forma clara, Lovins, consultor do Departamento de Defesa dos EUA, demonstrou através de números e outros dados que a energia nuclear “está perdendo drasticamente competitividade no mercado global quando comparada às energias limpas ou de baixo teor de emissão carbônica, que produzem mais soluções por dólar gasto em bem menos tempo”. Isso sem incluir os riscos de acidente e sabotagem. Segundo ele, “já que não é econômica e bastante desnecessária [a energia nuclear], não foi preciso incluir esses outros atributos”. Energias renováveis (ex.: energia eólica), co-geração de energia e usinas eficientes já são superiores e mais fáceis de custear. Desafio qualquer representante da indústria nuclear ou da Academia a debater com Lovins no National Press Club em Washington D.C., mediado por um representante neutro, ou diante do Comitê do Congresso.
No entanto, uma onda de lobistas da indústria nuclear está ganhando força no Congresso, atirando dinheiro para todos os lados sob o falso pretexto de preocupar-se com as questões relacionadas ao aquecimento global e a utilização de combustível fóssil.
Os críticos da energia nuclear que detém certo poder de influência no Congresso querem que as propostas foquem nas mudanças climáticas. Para combater a oposição, eles negociaram um acordo que dava status a reatores nucleares com garantias de empréstimos e outros subsídios em legislações semelhantes, já aprovados pelo Congresso, porém, como de costume, que ainda transitam a passo de cágado no Senado.
Experientes e firmes oponentes da energia atômica e líderes nas questões de combate às mudanças do clima, como o congressista Ed Makey (D-MA), permanecem calados enquanto republicanos (que amam os subsídios do Governo) e alguns democratas esperneiam por energia nuclear. Todo esse alarde desvaloriza o esforço de organizações como Union of Concerned Scientists, NIRS, Friends of the Earth e outros grupos de cidadãos bem estabelecidos que lutam por meios mais seguros, eficientes, rápidos e limpos de produção de energia para nosso país e também para o mundo.
Recentemente, um panfleto bem desenvolvido e documentado do Beyond Nuclear resumiu o argumento contra a energia nuclear em três palavras: “cara, perigosa, suja”. A claridade e o detalhamento preciso do documento torna-o esclarecedor tanto para amigos, vizinhos, quanto para colegas de trabalho. É possível baixá-lo de graça para reprodução livre no site www.BeyondNuclear. org. Vale a pena gastar os 10-15 minutos que levam para absorver certas verdades a respeito dessa complexa tecnologia – repleta de problemas e altos valores de custo de manutenção – e que está na pauta do Governo desde 1950.
*Economista e político. Ex-candidato “a presidência dos EUA pelo Partido Verde
(Fonte: Envolverde/ Revista Eco21)
terça-feira, 23 de março de 2010
Déda, uma usina nuclear e um constituinte
Idos de 1989 e, na Assembleia Legislativa de Sergipe, desfilava, altivo, um dos deputados mais atuantes daquela nova legislatura. Sujeito oriundo da classe trabalhadora, forjado nas lutas sociais que perpassaram os Anos de Chumbo até que o último facínora de farda fosse defenestrado do poder. Nas ruas, o movimento das massas não mais podia ser barrado, nem pelos blindados, e o grito de liberdade não mais podia ser abafado. Redemocratização, “Diretas Já!”, anistia, Tancredo eleito, e um sopro balsâmico de esperança e renovação trazia um alívio ao castigado povo brasileiro.
Ele estava lá! Acompanhou tudo isso, viveu cada momento e ali se fez homem de esquerda, da esquerda, ao lado daqueles que lutaram por um outro mundo possível, e, embalado por versos de José Martí e outros poetas revolucionários, sonhou ser capaz de fazer do seu pequeno Sergipe uma terra com justiça social.
O ano era 1989, e coube aos constituintes, deputados eleitos no ano anterior, cumprir a tarefa de, norteados pela recém-promulgada Constituição Cidadã brasileira, elaborar e promulgar um texto que promovesse e respeitasse as liberdades individuais, a dignidade da pessoa humana e o progresso sustentável do Estado de Sergipe.
E sonhando o sonho possível, ele estava lá, entre os constituintes eleitos. Neófito, ele, eleito pelo Partido dos Trabalhadores, que alimentado pelo sangue e suor dos operários metalúrgicos do ABC paulista, ganhou o Brasil numa trajetória surpreendente, desafiadora, regada a muita esperança e fé. Marcelo Déda Chagas, deputado constituinte, esperança do povo trabalhador de Sergipe.
Lendo os anais da Assembleia Legislativa do Estado desse tempo, é possível ver a desenvoltura com que o jovem parlamentar petista apresentava emendas e sugestões para a nova Constituição, e como as defendia. E, penso, estava encravada em sua alma a certeza de que o que escrevia e apresentava como propostas à Constituição sergipana era fruto das suas mais profundas convicções de um mundo melhor para aquela e para a vindoura geração de sergipanos.
E foi com essa convicção que, tenho certeza, o então deputado constituinte Marcelo Déda, a lado do seu companheiro de partido, Marcelo Ribeiro, apresentou a Emenda nº 184, propondo que ao então Art. 157 fosse acrescido o seguinte parágrafo:
“Fica proibida a construção de usinas nucleares, o transporte de cargas radioativas e o depósito de lixo atômico no território estadual”. [Sala das Comissões, 12 de maio de 1989].
Claro, a emenda pecava pelo excesso de zelo. Proibir transporte de cargas radioativas significaria impedir também o transporte de material radioterápico, como os alimentadores de aparelhos de Raio X, por exemplo, ou de uso científico. Não por menos, o relator, Nicodemos Falcão, 17 dias depois, votou pela rejeição da Emenda 184.
Mas convicto que estava sobre sua propositura, de que seria necessário resguardar os sergipanos do perigo que representavam as usinas nucleares e o seu lixo radioativo, costurou um acordo, sugeriu nova redação, acatou sugestões e a emenda, para sua íntima alegria, acabou sendo aprovada e figurou na Constituição de Sergipe, como parágrafo 8º do Art.232, com a seguinte redação:
“Art. 232. (...). § 8º Ficam proibidos a construção de usinas nucleares e depósito de lixo atômico no território estadual, bem como o transporte de cargas radioativas, exceto quando destinadas a fins terapêuticos, técnicos e científicos, obedecidas as especificações de segurança em vigor.”
21 anos depois, os tempos são outros... e os políticos também. Há um provérbio popular, de autor desconhecido, que diz: “Não importa o que o passado fez de mim. Importa é o que farei com o que o passado fez de mim”.
Parece que o passado, para o companheiro Marcelo Déda, não lhe serviu como balizador para as suas ações presentes. Longe disso, tornou-se um fardo, e a história que ajudou a escrever, um mero roteiro de teatro do absurdo, do qual foi um ator pueril e que, cujas cenas, haverão de ser apagadas, esquecidas. E para isso ele trabalha.
“Não posso fechar os olhos com preconceito. A instalação de usina nuclear é viável, sim, aqui no Estado”, brada agora o governador Marcelo Déda, ardoroso defensor da usina, que vai requerer vultosos R$ 13 bilhões do dinheiro do povo para funcionar. Adeus constituinte Marcelo Déda! Pras cucuias o sonho de uma sociedade segura e sem presença de lixo nuclear! As gerações futuras que se virem, nos próximos mil anos, com o bagulho que ficar! O que interessa são os investimentos que o empreendimento irá trazer! Importante é gerar energia para o grande capital consumir! Business is business!
“A geração de empregos para a região melhoraria de forma surpreendente os indicadores sociais. A população de Sergipe está preparada e ansiosa para receber um empreendimento importante assim”, assevera o “nuevo” Déda.
Ao que parece, o andar coladinho com o empresário tucano Albano Franco, sempre ávido por bons negócios que impulsionem suas empresas e inflem os seus lucros e o da sua família, contagiou aquele que, em tempos outros, tinha ojeriza a empresários, indignava-se com os grandes capitalistas e sua ganância, tinha repulsa às oligarquias sanguessugas e às elites parasitas.
Sinceramente, triste do homem que apaga a sua história em nome de uma falsa modernidade, de uma ilusória nova visão da realidade. Nem a usina nuclear vai gerar empregos duradouros (mas somente mão de obra para a sua construção), nem vai levar prosperidade e distribuição de renda para Canindé do São Francisco, tampouco para os sergipanos.
Fosse certo o raciocínio do governador, assim como o daqueles que defendem com veemência (e interesses pessoais camuflados) a instalação da tal usina atômica em solo sergipano, o povo de Canindé estaria vivendo num mar de prosperidade, num paraíso do capital, uma Suíça tropicaliente. Afinal, a hidroelétrica de Xingó também chegou com esse objetivo, e o que se vê por lá? Uns poucos muito ricos (e querendo cada vez mais) e uns muitos extremamente pobres.
Canindé tem um PIB per capita de cerca de R$ 83 mil (IBGE/2004), o segundo maior entre os municípios sergipanos - graças aos royalties da usina de Xingó -, perdendo apenas para Aracaju, mas a maior parte da população vive na miséria e o seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é dos mais baixos. Onde está a distribuição de renda e o progresso em Canindé? E os empregos, para onde foram depois que a construção de Xingó findou? Bem assim será com uma usina nuclear. O que ficará então? A riqueza para alguns e o lixo radioativo para todos. Sendo que os endinheirados têm lá seus jatinhos e helicópteros para uma fuga emergencial, em caso de vazamento.
Além disso, esqueceram de avisar ao companheiro Déda que usinas nucleares têm vida útil estimada entre 35 e 40 anos. Neste período, por exemplo, a usina de Angra I deve gerar 915 toneladas de combustível usado, um lixo que inclui o perigosíssimo plutônio, cuja radiação permanece ativa por milhares de anos.
Felizes os que morrem defendendo com firmeza os seus ideais e as páginas que escreveu ou ajudou a escrever; tristes os que fazem destes ideais trampolins para aventuras políticas pouco edificantes. Não! Apaguem o que escrevi! Emendem a emenda! Corrijam meus arroubos de revolucionário de falsas patentes! Assim poderei dormir mais tranquilo...
E imaginar que o agora governador Marcelo Déda jurou, em 1º de janeiro de 2007, quando tomou posse como chefe do Executivo sergipano, respeitar a Constituição do seu Estado, juramento este sobre páginas e letras escritas pelo constituinte Marcelo Déda... Pelo jeito, letras mortas!
Assinar:
Postagens (Atom)





